
É na
Quinta dos Caetanos (Alvite, Moimenta da Beira) que inicia o Percurso
Megalítico da Nave, um dos trilhos traçados pela Turi rotas na Rota da Serra.
Aqui recuamos até aos primórdios da
presença humana na região, onde comunidades essencialmente de pastores, há
cerca de 6 000 anos, quiseram enterrar os seus mortos, edificando menires e
imponentes túmulos conhecidos como antas, dólmenes ou popularmente como orcas,
assinalando um das maiores necrópoles megalíticas do país.
Estas comunidades construtoras de
sepulcros complementavam a sua subsistência com a caça, a pesca, a recoleção
dos recursos vegetais fornecidos pela natureza e a prática de uma agricultura
ainda muito rudimentar. Ainda não dominavam a técnica dos metais, produzindo os
seus utensílios em pedra, osso ou madeira. A preocupação com a vida para além
da morte levou-os a construir enormes túmulos reservados apenas a alguns. À
maioria da comunidade reservavam-se os abrigos rochosos ou simples fossas
abertas no solo.
Logo no início, junto à capela, será surpreendido por uma magnífica
estátua-menir, com uma configuração antropomórfica. Este tipo de esculturas é
geralmente interpretado como personagens pertencentes às elites, vinculados a
rituais com implicações sociais, inserindo-se cronologicamente na transição do
III.º para o II.º milénio antes de Cristo, num período denominado como Idade do
Bronze Inicial/Médio.
Chegando à área de lameiro, encontrará as primeiras estruturas funerárias - a
Orca da Fonte do Rato e a Orca do Bebedouro. As mamoas são visíveis ao longe,
na vegetação baixa, mas as dimensões dos túmulos são as mais modestas de todo o
percurso. No lado oposto do vale, no relevo montanhoso conhecerá as
maiores.
Nesta área de extensas chãs e terrenos alagadiços (onde nasce o ribeiro da
Nave, afluente do Varosa), pode observar uma outra estátua, em granito, da
Idade do Bronze, ainda implantada no sítio original. Trata-se de uma escultura
antropomórfica ou antropomorfizada, em posição ereta no solo como um menir,
sugerindo uma clara intenção de visibilidade e de íntima relação com a
necrópole megalítica que a envolve.
Daqui seguirá até à Orca Grande que, pela sua dimensão e quase
imperturbabilidade, é um dos pontos de destaque do trilho e um bom exemplo de um
monumento megalítico, transmitindo-lhe a imagem de uma sepultura pré-histórica
implantada numa colina artificial de terra e pedras (mamoa). É verdadeiramente
colossal. Só a laje de cobertura mede cerca de 3,70 m de comprimento e 4,60 m
de largura.
Estes monumentos aos mortos transmitem, como primeira mensagem, a ideia de
capacidade e de durabilidade, pelas dimensões que atingem. A capacidade de
extrair enormes pedras, transportá-las para locais muito afastados e
inscrevê-las na paisagem, como marcas que simbolizam a crença na vida do Além.
Se for num belo dia de sol, nas suas imediações, achará, com facilidade, uma
série de gravuras numa superfície rochosa. Podendo deter aqui um significado
complementar, os motivos representarão uma forma de comunicação codificada,
intrinsecamente ligada a aspetos da realidade quotidiana dos construtores
destes megálitos, com propósitos territoriais e/ou religiosos/funerários,
"comungando", talvez, segundo um ato cerimonial, do mesmo mundo de
simbolismo perpetuado nas estátuas-menires.
Em seguida, visitará a Orca das Carquejas, um túmulo provido de corredor.
Estrategicamente posicionada no cimo de uma cumeada, domina visualmente toda a
área do planalto onde se encontram os restantes monumentos da necrópole.
Mais abaixo, a escassas centenas de metros, já muito próxima da base do vale,
ergue-se o último túmulo do percurso - a Orca de Seixas, um monumento
tipologicamente semelhante ao anterior, embora de maiores dimensões. Devido ao
adiantado estado de degradação, foi alvo de trabalhos de escavação, restauro e
consolidação. A entrada do corredor é obliterada por uma laje pouco espessa que
funciona como porta. Geralmente seguida por rituais, através de fogueiras no
local de acesso ao interior do sepulcro, podemos imaginar aqui a deposição
do(s) defunto(s) como que um regresso do ser humano ao ventre materno - Terra
Mãe.
Fácil e muito agradável, este é um percurso que permitirá compreender o
fenómeno do megalitismo e as práticas funerárias durante a Pré-História.
Autor: José Carlos Santos
turirotas@gmail.com
http://turirotas.blogspot.pt/