sábado, 24 de março de 2012

«Artesanato» - O último artesão das capuchas de Alvite (Com reportagem SIC)

Aos 75 anos, Joaquim Ribeiro Novo carrega o peso da responsabilidade de ser a única pessoa que sabe fazer as capuchas de Alvite, agasalhos que outrora ajudaram novos e velhos a enfrentarem invernos rigorosos na Serra da Nave.

Encomendas não lhe faltam, quer de pessoas com raízes nesta aldeia do concelho de Moimenta da Beira, quer de fora, mas os olhos começam a ter dificuldades em se fixarem no castanho escuro do burel.
“Tenho de vir com a máquina da costura para o sol, senão não consigo fazer as capuchas”, admitiu à agência Lusa.

O “Ti Joaquim Laura”, como é conhecido, começou a aprender a fazer estas capas aos 15 anos, quase obrigado pela mãe, porque “precisava de ganhar uns tostões” depois da morte do pai e de passar a ser o homem da casa.
“O meu pai já as fazia, só que enquanto ele estava a trabalhar eu andava com o gado e não deu para aprender com ele”, contou.
Quem o ensinou foi um dos dois artesãos que havia na altura. Aos 18 anos, “já fazia as capuchas sem dificuldades” e, até hoje, nunca recusou uma encomenda apesar de nestes 57 anos ter também sido alfaiate, barbeiro, produtor de batatas e criador de vacas leiteiras.

“Há mais de 30 anos que sou só eu a trabalhar nesta arte. Quando eu morrer não fica cá ninguém para fazer as capuchas”, lamentou.
O idoso recordou que no passado, “quantas pessoas tivesse uma casa, quantas capas lá havia”, e eram usadas diariamente, no pastoreio e nos trabalhos do campo.
“Na altura havia muito frio – lembro-me que em 1959 caiu uma camada de neve que durou 15 dias – e a capa é que agasalhava. Mas servia também para encobrir as misérias, porque era toda a gente muito pobre, muito mal vestida”, contou.

Hoje, nem o frio, nem as misérias são tantas na Serra da Nave, mas as capuchas continuam a ter procura. Só no ano passado, Joaquim Ribeiro Novo estima ter feito perto de 40.
“Na altura, eram os pobres que as queriam, por necessidade. Agora são os ricos, pessoas formadas, que gostam desta tradição e querem ter uma capucha para ficarem com uma recordação”, sublinhou.
Cada capucha demora cerca de três horas a fazer e custa 60 euros.

“Os meus filhos até berram comigo, por levar barato. Mas eu faço-as mais pela amizade e consideração que tenho pelas pessoas e pelo amor à arte do que pelo dinheiro. Pelo dinheiro foi noutros tempos”, garantiu, enquanto empurrava energicamente com os pés o pedal da sua máquina de costura, a única que sempre teve.

A esposa Nelcina, com quem está casado há 53 anos, entende o seu amor pela arte e ainda hoje usa, com orgulho, a capa que o marido lhe fez há mais de 15 anos, cujo castanho escuro o tempo já desbotou.
“Agora tens de me fazer uma em preto”, disse Nelcina ao marido, que se mostrou pouco satisfeito com “a mania do preto” porque “a capucha tradicional é a castanha”.

Joaquim Ribeiro Novo acredita que a capucha de Alvite tenha sido responsável por muitos casamentos nos tempos em que, um pouco por toda a aldeia, as raparigas se juntavam em grupos para “cardar lã” ao serão.
“Os rapazes iam ao grupo onde estivessem as raparigas que lhes interessavam e pediam-lhes que lhes aquecessem os pés”, contou.

Se a rapariga abordada acedesse, o rapaz deitava-se com os pés virados para ela, que os embrulhava na sua capucha.
“Assim começaram muitos namoros. E as pessoas comentavam: ‘fulano deita-se sempre na frente de fulana, devem namorar”, recordou.

Fonte: AsBeiras.pt

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