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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

«História da Nossa Terra» - A Implantação da República vista por Ladislau Patrício, genro dos Sarmento Vasconcelos de Paradinha

Nagosa, Outubro de 1910. Anselmo Nogueira, boticário e caseiro, casado com D. Ermelinda, andavam emaranhados nos trabalhos da vindima. Vindo ali de Lamego um caixeiro de amostras, dera-lhes a notícia de que estalara a revolução na capital. Espalhara a novidade de que Lisboa era, a essa hora, um mar de sangue. A notícia, porém, era vaga e incerta, mas não deixava de ser sintomático que ali chegasse assim aquele lugar sertanejo e ignorado, veiculada por um labrego analfabeto. Desde o assassinato de D. Carlos, a última trave do edifício monárquico, que Anselmo, acompanhando o alvoroço em que desde então o país se precipitara, sentia um forte desânimo. O reino era chefiado, desde aí, nem por um rei nem por uma rainha senão por uma figurinha débil e epicena de maricas. Não obstante preocupado reagiu Anselmo “nós cá não temos nada com isso, lá é com eles, acima de tudo o que eu sou é patriota, República ou Monarquia tanto se me dá, o que é preciso é haver quem nos governe”. Proclamada a República a novidade foi oficializada em Nagosa. Sabia-se que em Moimenta os republicanos tinham já içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário. Ia um delírio na população que reagia ora timidamente ora de forma mais afoita. O brasileiro de Cabaços, sabia-se, deitara mesmo meia dúzia de foguetes que se avistavam perfeitamente de Nagosa. De ânimo fácil de conformar, Anselmo já trauteava, tempos depois, a Portuguesa. Porém, o primeiro desgosto sério que teve com a República, foi a Lei da Separação. Apesar de lhe dizerem que o espírito da lei não era perseguir ninguém mas apenas a necessidade de o Estado se abster de apadrinhar esta ou aquela religião, ele mantinha que o país era católico e que as leis republicanas era um atentado contra a religião de cada um. A mudança das cores da bandeira reprovava-a também, vindo-lhe lágrimas aos olhos quando viu hasteada na Câmara o hediondo trapo republicano. A mudança de regime como ele a entendia, deveria cingir-se a abolir a realeza como causa maior dos cataclismos que assoberbavam o país. O resto era pó, ou melhor, ódio, vingança, perseguição, fanatismo. Prisões, demissões, desacordos, antipatias, sucediam-se. As redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens armados e coléricos que tudo destruíam. Anselmo assistia a tudo indignado. Cale-se, vociferava ele a Teotónio Mendes, republicano hereditário. A República tem de ser tolerante se quiser viver! A opinião pública está com a Igreja, acrescentava ele com o suor a porejar na fronte. Retomava: podem-me prender, se quiserem, que eu direi sempre a verdade. Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos… perdão (emendava), com família numerosa. Tudo mudara, na verdade e até mesmo o movimento farmacológico no concelho diminuíra, não havia doentes, pois tudo e todos estavam ocupados em acções de insubmissão. Que Anselmo abraçava a causa de Paiva Couceiro, vigoroso comandante da reacção monárquica a partir da Galiza, sabia-se não apenas no seu universo de amigos mas também fora de portas no reduto monárquico. Talvez por isso Anselmo principiou a usar de mais perspicácia tornando-se num farsante, aderindo oficialmente à causa republicana e, tempos depois, quando da organização dos partidos, filiou-se nos democráticos. Um dia um dos ministros foi a Viseu. Anselmo, o administrador do concelho, o jornalista Meneses e outros participaram do evento. Brindando à condenação do clero falou de Viriato e terminou com um viva à República que atroou o vasto recinto do teatro onde decorria o banquete. Sensibilizado, o ministro ergueu-se, agradeceu, discursou pausadamente e, no fim, empunhou a taça e pediu que todos bebessem à saúde de Anselmo Nogueira, “figura prestimosa da República, homem de bem às direitas, livre-pensador e companheiro fiel dos tempos de propaganda”. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe: “Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da propaganda, ouviste? Que desaforo! O administrador comentou: e livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e de opa na procissão do Senhor dos Passos! O que é o mundo!...” Teotónio pôs-se a considerar palitando os dentes e não resistiu a indagar: “Então e nós?”, respondeu o administrador: “Nós? Nós não sairemos nunca da cepa torta, meu velho… Este Anselmo, este farmacêutico, que ali vês recostado numa cadeira, é o modelo do político português. Maioral no tempo da monarquia, maioral se vai tornando dentro da República. Era de esperar. Pois se os monárquicos é que prepararam isto com os seus erros, se eles é que deitaram a monarquia por terra, não achas justo que quem plantou a vinha pense também agora em comer os cachos?...”

Este é, a breve trecho, o conto da autoria de Ladislau Patrício, escrito em 1912, e publicado em Coimbra em 1914 num livro que intitulou Aquela Família. Tipos, caricaturas e episódios provincianos, numa altura em que a República estava ainda quente e a monarquia e os seus obreiros eram de fresca memória. Trata-se, no meu entender, de uma interessante crónica sobre o que foi a implantação da República em Moimenta da Beira. Ainda que ficcionária, percebem-se certos laivos de realismo. O facto de o narrador ser participante, sob a personagem de Teotónio, que relata a história, reforça a convicção de que as páginas de Ladislau se entremeiam de realismo. De resto, espremidas as páginas, avultam personagens e factos profundamente consonantes com a realidade epocal.

Ladislau, clínico natural da Guarda, casou no dia 8 de Abril de 1911, em Paradinha, com D. Maria José Sarmento de Vasconcelos. Era a noiva filha de Artur Sarmento de Vasconcelos, pertencente a uma distinta família monárquica. O consórcio foi noticiado pelo Jornal A Folha do Norte, pelo que republicana era a família já nesta altura. Do nubente notava o artigo: “[…] é um simpathico rapaz, muito inteligente e cheio daquella bondade e franqueza que caracterisa o tipo beirão. Novo ainda, é já um distincto medico e para se aquilatar da generosidade da sua alma, basta dizer-se que é poeta. Escreveu o “Azul Celeste”, um mimoso livro cheio de lirismo, onde revela largos voos de imaginação e um fino gosto de paisagista delicado”.

Ladislau Patrício é mais um entre tantos outros autores que prosaram vivas páginas de interessante ficção entremeadas de realismo histórico, incidentes sobre o concelho de Moimenta da Beira que convém recuperar e rememorar. O seu livro, raríssimo, merecia, como outros, reimpressão. A cultura escrita moimentense vai muito além dos autores consagrados.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

«História da Nossa Terra» - O machado de pedra polida do período Neolítico encontrado na Portela (Leomil)

O Neolítico (neo-novo; lítico/litos-pedra = período da nova pedra ou da pedra nova) é o último período da Idade da Pedra e caracteriza-se por uma profunda mudança. A partir de 9.000 anos antes de Cristo começaram a formar-se as primeiras comunidades neolíticas, que trocaram o estilo de vida nómada pelo sedentarismo. O que caracteriza basicamente o Neolítico é o estabelecimento de novas relações entre o homem e o meio-ambiente. Este novo processo de articulação do homem com o meio natural conheceu vários estádios de evolução e relaciona-se sobretudo com o cultivo inicialmente incipiente de plantas e domesticação de animais de grupos nómadas que se foram fixando em comunidades aldeãs semi-permanentes e posteriormente permanentes.

As práticas agrícolas iniciais do homem neolítico terão decerto resultado de muitas experiências e o acaso deve ter jogado um importante papel. O solo passou a ser preparado com o fogo entretanto já descoberto e dominado mas a adaptação da utensilagem lítica foi um aspecto nodal. Os instrumentos até então concebidos não serviam já as necessidades ocupacionais do quotidiano e foi necessário inventar novos e aprimorar os já existentes. Foi essa técnica utilizada na confecção dos instrumentos que deu o nome a este período, isto é, a passagem da pedra lascada à pedra polida inaugurou um período novo, entremeado pelo Mesolítico (meso-meio; lítico – pedra), que constituía o período da pedra polida sendo ainda a pedra, por conseguinte, a matéria-prima primordial deste período da pré-história.

Muito embora o estudo destas pequenas comunidades neolíticas tenha sofrido um notável desenvolvimento nos últimos cinquenta anos não podemos pensar que este já não é um terreno a desbravar, porquanto existem ainda alguns povoados a localizar. Tal facto advém do semi-nomadismo acima exarado que implica que possamos hoje encontrar artefactos isolados deste período da pré-história em vários locais. A Portela, na freguesia de Leomil, é um desses locais, recentemente detectado. Quando arroteava um terreno sobranceiro ao seu armazém de trabalho, o Sr. Arménio Santana Aguiar empunhava uma enxada quando deu com força numa pedra dura cujas feições lhe despertaram a atenção. Ao analisá-la decidiu guardá-la e, recentemente, numa das habituais conversas que nos levam para os meandros da cultura local, deu-me a conhecer o achado, o qual, dias depois, me entregou para análise.

O objecto trata-se um monólito ovalado que apresenta uma mancha de óleo que lhe foi derramada acidentalmente depois de encontrada e colhida do solo. Apresenta riscos de embate mas apresenta a sua superfície totalmente polida. Uma das extremidades é mais delgada e a outra mais robusta contendo, esta última, vestígios de uma quebra que leva a supor que o objecto se estenderia por mais uns quantos centímetros. Analisado tecnicamente o objecto, porém não o tendo submetido a métodos precisos de datação apenas conseguidos em laboratório, concluí que há fortes razões para acreditar que se trata de um machado de pedra polida do Neolítico, cuja datação se situará entre os 9 mil e os 6 mil anos antes de Cristo.

Ter-se-á instalado o “homem neolítico” na Portela? Analisando a hipótese em termos técnicos dir-se-á que é crível. Desde logo pelas características do local, o factor que na pré-história verdadeiramente ditava a fixação de humanos em determinado espaço. A Portela situa-se, em primeiro lugar, num montículo onde os visos alcançam largos quilómetros. Localiza-se na encosta da serra, pelo que está a um tiro de pardal de uma flora abundante que faz do local um habitat fértil. A fauna existente na serra permitia à comunidade da Portela seguir o rasto a uma série de espécies, sendo os javalis, as lebres e as aves o alvo preferencial das actividades de caça neolítica nestas paragens. Finalmente, refira-se que o local está implantado nas margens da ribeira de Leomil, sem dúvida um elemento crucial para a horticultura e também para a criação de gado. Em termos físicos, portanto, o local era de molde à fixação ancestral.

Para além do habitat ajudar a presumir que o achado arqueológico advém de uma fixação neolítica na Portela, importa referir que perto deste lugar foram detectados outros monumentos relativos ao mesmo período. Refiro-me à Orca outrora existente no caminho antigo que ligava Beira Valente a Moimenta da Beira, perto do Cargancho, local onde já foram encontrados vestígios de povoados ancestrais. Trata-se de um monumento megalítico construído durante o período do Neolítico que dista relativamente pouco da Portela.

A fixação de uma comunidade ou de algumas famílias neolíticas na Portela, indica que o nomadismo do período anterior, o Paleolítico, veio desembocar em Leomil pela escolha do meio local como o mais apropriado para o sedentarismo. Deixaram as comunidades paleolíticas de ser caçadoras e recolectoras para serem sedentárias, atravessando territórios de acampamento em acampamento para finalmente começarem a produzir alimentos em locais férteis e se fixarem à espera da colheita, sobretudo cerealífera. É provável que já antes tivessem experimentado uma agricultura esporádica, ocasionalmente aproveitando uma mais demorada estadia em campos férteis mas a fixação permanente ocorre depois do nono milénio antes do nascimento de Cristo passando a ser sistemática a partir do sexto milénio a. C.

Teria sido esta fixação remota que posteriormente originaria pequenos povoados e até certamente o facto de passar por aí a artéria principal que ligava Leomil a Moimenta da Beira. A “estrada larga” que ligaria Moimenta a Beira Valente iria desembocar numa bifurcação que seguia até á Portela e daí, pelo S. Roque e Sanjães, até Leomil. Com a evolução dos povoados o local da Portela seria a plataforma para a fixação de outras comunidades históricas, situação a que não é estranho o facto de num terreno próximo terem sido encontradas várias tegulae e também de no lugar de Sanjães, ali vizinho, ter ficado a memória medieval, exarada no cartulário do mosteiro de S. João de Tarouca, da existência de um mosteiro de freiras. Com o período medieval e a expansão do Couto Leomil, o local terá passado a designar-se Portela. Etimologicamente Portela significa “porta pequena”, desdobrando-se o vocábulo em “Port” – porta e “ela”- ideia de porta pequena ou de povoado. A Portela poderá ter sido, por conseguinte, um dos locais de passagem obrigatória e respectiva paragem para pagamento de impostos de circulação tipicamente medievais. Já ao chegar ao núcleo da vila de Leomil existiria outro local de paragem ainda hoje designado “Chão da Porta”, onde se implantou recentemente um bairro novo.

O mais que provável machado de pedra polida encontrado na Portela é, neste contexto, um elemento fulcral para se perceber o povoamento pré-histórico da região, o qual está intimamente relacionado com os locais que garantiam se possível em acumulação: campos férteis, colinas protegidas, matas com boa caça, ribeiros ricos em peixe, bacias marítimas propícias à pesca e ao trânsito de mercadorias.

Tratar-se-á este achado, em suma, de um machado em granito polido, de formato sub-rectangular, de razoável polimento considerando o tipo de material. Mostra alguns vestígios de desgaste, mormente pequenas lascagens quer no gume quer na parte posterior, de encabamento. A suposta lâmina encontra-se deteriorada e a parte que encaixava no cabo está abalada. É um achado isolado, até então. Uma ferramenta como o machado neolítico, além das propriedades de corte de materiais e alimentos, poderia ter acumulado outras funções. Para além de utilitário, este objecto poderia ser um símbolo de poder, de masculinidade, assim como, cumulativamente, uma «peça de família», um objecto herdado de pai para filho. Agradeço ao Sr. Arménio o ter-me proporcionado o contacto com este importante objecto e resta-me desejar que ele seja preservado.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

«História da Nossa Terra» - A primeira comunidade cristã luso-romana da freguesia da Rua: a capela de S. João de Vide

A capela de S. João é um templo esbelto que a população da freguesia da Rua não deixou cair por terra. Completamente arruinada há escassos anos atrás, foi alvo de uma reconstrução e recuperação notáveis que a segurarão hirta por mais um punhado de décadas. Erguida na cimalha de uma lomba entre Vide e a Granja dos Oleiros, encontra-se implantada num solo fértil, bafejado por um micro-clima apreciado pelas sociedades do passado, nomeadamente as comunidades romanas, porquanto era propício à germinação de culturas tão importantes como a da azeitona e do vinho. Outrora cidadela, denominado de Arrochela ou Rochela, segundo a tradição oral, este é um espaço abrigado, e muito menos exposto à dureza climatérica de outros existentes do concelho. Os visos são também de molde a pressentir-se aqui uma fixação remota de povos ancestrais. O horizonte é infindo e o vale acentua-se em depressão de anfiteatro, guardado lá no alto pelas serranias que, transpostas, levam o olhar até ao Távora.




Trata-se de uma capela de pedra, caiada, deixando a nu apenas o granito do esqueleto do edifício e a bordadura das pequenas reentrâncias, nomeadamente a porta e janelas. Contém acima da entrada uma inscrição onde se lê MVDADA NO Ã DE 1757 (mudada no ano de 1757). Foi mudada para a distância de um tiro de espingarda, à beira da estrada que ligava Vide a Arcozelo, pelo que bem perto deve haver vestígios do antigo templo. A justificação para a mudança foi o facto de se encontrar degradada e solitária. Tanto a sua reconstrução como a sua reconstituição sofreram naturalmente influências da época, nomeadamente os cunhais, as portas, a cornija. A composição lateral, da qual constam dois nichos encimados por dois orifícios quadrados para ex-votos e ao centro uma cruz granítica, deve datar da mudança da capela.



É possível ainda que nos trabalhos de trasladação se tenha alterado a altura do edifício, assim como a largura do mesmo. Conjectura-se fácil que as características do antigo conjunto arquitectural tenham sido profundamente alteradas, já que as ermidas antigas eram muito modestas. Contudo, é quase certo que as pedras foram todas trasladadas e a reconstrução se fez sem grandes robustecimentos pois se assim fosse uma capela mudada em 1757 não estaria em completa ruína nos anos 50 do século XX como aconteceu.



Dir-se-á, sem reservas, que aqui nasceu Caria de Jusã actual freguesia da Rua, tal é a mescla de épocas históricas remotas a que pertencem os artefactos encontrados nos terrenos cercanejos. Foi aliás esse facto que levou Gonçalves da Costa a afiançar que ter-se-á formado aí a primeira comunidade cristã luso-romana no espaço da actual freguesia. Erguida essa comunidade, foi erguida também uma capela em honra de S. João Baptista, referenciada num epitáfio (inscrição) do ano 589. Dessa lápide que terá sido achada na capela, constava que “Amanda, serva de Jesus Cristo aí falecera em paz nesse ano”. Este, porém, não fora o único “monumentum” (lápide sepulcral com epitáfio) a ser encontrado. No fim do século XVIII, assevera João Romano Torres no seu Dicionário, numa vinha junto a esta capela, foi encontrada uma grande sepultura de pedra muito bem lavrada.



Cimentada a comunidade, ela veio a ser alvo de sucessivas ocupações praticamente até a Idade Média, como comprovam as abundantes sepulturas escavas na rocha, alusivas a esse período, que se encontram nas imediações do espaço onde está implantada a actual capela. Duas delas estão logo na bordadura do caminho, de fronte para uma das faces laterais do templo.



No que concerne aos demais artefactos que têm brotado do solo como as trutas do Távora, contam-se fragmentos de tégulae, tijolos de grossura ancestral, vasos, pesos, um manancial de moedas em vários tipos de metal, entre outros monólitos que denunciam a existência de uma ocupação primitiva remota do local. Alguns deles existem ainda na posse particular onde se espera que sejam guardados e preservados, pois são eles a prova cabal da grandeza cronológica da história desta freguesia da Rua.



Teria sido, portanto, entre Vide e Granja dos Oleiros, que se instalou a primeira comunidade devota a S. João. Daí irradiaria o culto para paróquias criadas posteriormente, nomeadamente a de S. João Baptista de Moimenta da Beira que na sua génese era uma freguesia de Leomil, a qual tinha como cabeça a paróquia de S. Tiago, outro dos santos muito venerados na região, e que fazia calcorrear pelos caminhos romanos da região a chusma de peregrinos que aqui repousavam das jornadas em direcção a Compostela.



A imagem desta capela é muito antiga e foi trasladada para a capela do Espírito Santo de Vide (outrora de S. Sebastião), na altura em que ela se encontrava completamente arruinada. A talha foi vendida na década de 50 pelo pároco da freguesia, não sabe por que quantia nem para que fins! Destino idêntico tiveram outras capelas do concelho. Não acreditou o sacerdote, pelo que se conjectura, que o antigo templo edificado em honra de S. João Baptista 500 anos depois do nascimento de Cristo seria recuperado. A talha que hoje lá poderia estar, bem como a antiga imagem do apóstolo seriam um valor acrescido para a monumentalidade desta freguesia.



Estranhamente esta capela não se encontra em termos físicos orientada para o poente, o que constitui uma particularidade a assinalar, a qual reforça a ideia de que foi para aqui trasladada ou mudada de outra localização, tal como alude a já supracitada inscrição. No que respeita à celebração e importância do S. João para a povoação de Vide, fica a referência histórica de que nesta aldeia se realizava uma feira mensal dita de S. João.



Sabe-se que em 9 de Junho de 1753 apesar de já não estar em boas condições foi a casa onde Rodrigo Guedes de Vasconcelos, mestre de campo da comarca de Lamego, contraiu matrimónio com D. Margarida Joaquina Peregrina Botelho de Meneses, da freguesia dos Anjos, Lisboa, já viúva de Álvaro José Pereira de Quadros Borralho.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

«História da Nossa Terra» - Vestuário de antanho (os pastores)

Desde tempos muito remotos o Homem sentiu necessidade de se cobrir e agasalhar. Começou a criar, por conseguinte, a partir de folhagem e peles de animais as peças de vestuário de que necessitava. Com a evolução das sociedades humanas foram surgindo novos hábitos e costumes deixando o vestuário de constituir apenas uma necessidade básica para se tornar um meio de afirmação pessoal no contexto dessa mesma sociedade. Ontem mais do que hoje o trajar espelhava as possibilidades económicas dos indivíduos de uma comunidade.

O trajo acompanhou a evolução da sociedade através dos tempos e a moda tornou-se uma indústria altamente rentável. Se o advento da era industrial trouxe consigo a produção em escala e o pronto-a-vestir que teve como consequência a uniformização do modo de vestir em detrimento dos costumes locais.

A fotografia é indubitavelmente uma das fontes documentais mais importantes para quem lograr conhecer com algum rigor os usos e costumes no período que medeia entre o século XIX e o século XX. Porém, o aparecimento da fotografia coincide com a industrialização dos processos de produção que levaram a uma inevitável alteração de hábitos e a uma padronização cada vez maior no modo de vestir, com excepção do mundo rural que foi resistindo a essa evolução.

Os trajos de antanho são património material, mas a sabença popular que lhe está na retaguarda faz parte de um património imaterial que importa da mesma maneira recuperar, preservar e divulgar. O trajo popular é o modo mais ou menos generalizado de vestir (conjunto de peças de roupa, calçado e adornos), dos indivíduos que compõem o agregado de uma dada comunidade, num determinado tempo. Para a apreensão do trajar é pois imprescindível atentar no tempo e no espaço que o produziram. E conseguimos perceber essas referências quanto mais estivermos conscientes de que elas advêm de quadros mentais, espirituais, valorativos, estéticos, filosofias de vida e comportamento e os recursos materiais existentes. O trajo é dos temas de estudo que mais varia no tempo e no espaço e muito embora existisse um modelo geral comum de determinada localidade ou região a verdade é que existiam também influências pelo contágio com outros trajos oriundos de outras culturas. Os alfaiates e as costureiras, as bordadeiras e as tecedeiras, bem como os indivíduos a quem se destinavam as peças, imprimiam o seu gosto e feição próprios às peças que confeccionavam ou mandavam confeccionar, criando assim variantes de um mesmo trajo local.

Até ao aparecimento da produção em série o vestuário era confeccionado de forma artesanal e, sobretudo nos meios rurais, nem sempre existiam recursos materiais para se poderem adquirir os tecidos necessários à sua confecção, ao contrário do que sucedia com as famílias nobres e abastadas que tinham capacidade para os importar.

Até chegarem aos teares as fibras vegetais eram cultivadas e passavam por um processo de confecção. Já aí, o vestuário, de linho, sorrobeco ou outros tecidos adquiria forma: com cores sóbrias ou garridas, com mais ou menos estopa, consoante a sua finalidade, de acordo com a condição da pessoa que o vestia e ainda com as características do clima ou da função, se destinava ao trabalho ou a ser usado em dia festivo. O mesmo acontecia em relação aos acessórios, incluindo os que serviam para cobrir a cabeça. Enquanto o lenço servia às mulheres da arraia-miúda (as senhoras fidalgas e nobres não o usavam), o trabalhador do campo usava invariavelmente chapéu ou barrete que se ajustava à cabeça, proporcionava conforto e não dificultava os movimentos, possuindo por vezes outras utilidades como a de esconderijo. Quando a temperatura e actividade a que se dedicava o exigia, usava um chapéu de palha com aba larga que, à semelhança do vestuário, era de construção artesanal.

Um dos trajos mais característicos desta região serrana é o trajo de pastores, tal como apresento na imagem (Rancho Folclórico da Casa do Povo de Leomil). Veste o pastor capa de palha de junco entrançada, com amplo cabeção e saia, aberturas laterais para os braços, frentes ajustadas com cordões feitos da mesma fibra. Contém polainas da mesma palha, envolvendo as pernas a partir dos joelhos e atados com cordões no lado de dentro das pernas. Por baixo da capa o pastor veste colete e calças de burel castanho com presilha traseira, camisa de riscado com dianteira e buraco de botão para apertar na calça. Na cabeça chapéu de palha com aba larga e por baixo a usual carapuça de lã. Calça tamancos de revirar de amieiro, com testeiras de ferro, e meias de lã. Usava varapau robusto de tamanho até ao nariz e lampião de lata movido a azeite. Ocupava-se a fazer flautas com pau de sabugueiro. A capa de palha tem várias designações segundo a região, tendo sido profuso o seu uso no país. É conhecida na nossa região como palhoça mas também é designada de coroça ou croça. A sua feição era em geral igual sendo constituída por cabeção e saia. As fibras do centeio e do junco são entrançadas em sucessivas carreiras (rumal) de modo a obter a forma e as dimensões desejadas. Depois de terminada, a palhoça era penteada com pente de ferro para desemaranhar e abrir as fibras.

Por seu turno, a pastora usa blusa de algodão estampado (chita) com gola redonda, encaixe guarnecido com folho e frentes com carcela abotoada; mangas compridas com punho e nastro de apertar. Saia de burel em tons de castanho e avental de riscado em tons de azul ou preto a acompanhar o seu tamanho. Na cabeça lenço de algodão e a rematar o conjunto capucha de burel pelas costas ou, em tempos de mais invernia, pela cabeça. Calça socos romeiros de amieiro castanhos com brochas de ferro e meias de lã até próximo do joelho. Segura na mão a teiga (cesta) de palha de centeio e silva, contendo o ferrado (leiteira) para o leite. Entretinha-se em determinados trabalhos domésticos como fiar e fazer meias, pelo que levava cesta para a serra. Como roupa interior usava camisa em meio linho rendada nas bordas de um centímetro e saiote em meio linho com alguns folhos, igualmente com rendado de cerca de um centímetro nas bordas e nastro para apertar.

Publicado na última edição do Jornal Terras do Demo

quarta-feira, 15 de junho de 2011

«Crónica-História» - A contribuição indirecta aos mercados de Moimenta da Beira entre 1836 e 1838

Este é o tempo em que o assunto dos impostos está na ordem do dia. Tal como hoje, também no passado existiam os impostos cobrados ao nível central pelo Estado, e ao nível periférico pelas instituições políticas municipais, caso dos mercados ou feiras. No que respeita aos impostos cobrados pela coroa, eles eram arrecadados por um indivíduo nomeado para esse efeito: tratava-se do recebedor do concelho. Em 12 de Novembro de 1836, Tomás Maria de Paiva Barreto, contador da fazenda do distrito de Viseu, nomeou como contador do concelho de Moimenta da Beira Custódio Coutinho da Costa Teixeira por “nelle se acharem os requezitos necessários”. No auto de nomeação da Contadoria Distrital acrescentava-se ainda que o contador de Moimenta da Beira deveria servir nesse ofício “emquanto bem o dezempenhar e assim convinha ao serviço Nacional, devendo aprezentar dentro em trinta dias a sua escriptura de obrigação e responçabilidade que toma sobre si e sem o que não terá efeito esta nomiação a qual deve ser registada na respectiva Camara”.

Além dos impostos cobrados pelo Estado, cabia às Câmaras regulamentar os mercados locais e fixar as contribuições indirectas. Os mercados ou mais especificamente as feiras eram sobremaneira importantes para as sociedades do passado. Talvez por isso, cedo houve a consciência de que deveriam ser regrados e tributados. É preciso recuar aos tempos medievos para encontrar a génese do planeamento logístico e económico de que passaram a ser objecto os mercados e as feiras. O preço dos produtos, para que existisse equidade era também uma preocupação das autoridades. A título de exemplo, alguns forais aludiam a esse aspecto. Apenas as feiras francas, criadas e impulsionadas pelo “lavrador” (rei D. Dinis), não eram tributadas. Estas, além de pressuporem uma graça ou um privilégio do rei para com determinadas localidade, destinava-se especificamente a impulsionar o comércio, reabilitando o povoamento de zonas ermas. Exceptuando as feiras francas, de que foi exemplo a célebre feira franca de Viseu (que ainda hoje se realiza em memória da feira antiga), ou a feira franca de S. Tiago de Leomil, de gado lanígero, que se realizava no dia do padroeiro da vila, todas as outras estavam sujeitas a impostos.

Eram muitas as feiras que se realizavam no actual concelho de Moimenta da Beira. Umas de carácter mais esporádico, ou sazonal, outras de frequência mais basta, eram bem mais do que aquelas que se realizam na actualidade. Moimenta tinha regularmente feira, a qual se realizava nos terceiros domingos e primeiras segundas-feiras de cada mês. Os mercados da vila de Moimenta da Beira remontam ao período moderno e sempre houve a preocupação de os regulamentar. De tempos a tempos, e porque a evolução económica ia sofrendo alterações, as Câmaras Municipais discutiam e fixavam o valor das contribuições a cobrar. Foi o que aconteceu em Moimenta da Beira no ano de 1836.

Governava os destinos da autarquia António Rebelo de Andrade, o qual tinha como vereador fiscal José da Rocha Pinto, como terceiro vereador Manuel Loureiro Sobral, como quarto vereador António Joaquim de Almeida e como quinto vereador José Gomes de Carvalho. António de Lemos se chamava o secretário da Câmara, a quem se incumbia o ofício de lavrar por escrito o conteúdo de todas as sessões.

Em 13 de Junho a Câmara lançou a contribuição indirecta aos mercados da vila, ou seja, o valor que deveriam pagar os comerciantes para exercerem a sua actividade. Este rol era condicente com o género de actividades comerciais existentes pelo que nos indica o tipo de comércio existente. Acresce para mais que os valores diferenciados por cada tipo de actividade tinham em consideração, estou em crer, o volume de negócios, pagando mais os ofícios mais rentáveis.

Os negociantes de panos pagavam 100 réis; os contrabandistas pagavam 100 réis; os tendeiros galegos pagavam por cada carga ou costal 100 réis; os tendeiros portugueses por cada carga pagavam 100 réis; os vendedores de linho em rama pagavam 20 réis; as tecedeiras pagavam 20 réis; os vendedores de queijos e galinhas pagavam 10 réis; os ferreiros pagavam 40 réis; os vendedores de pregagem pagavam 40 réis; os coureiros (vendedores de couro) pagavam 100 réis; os vendedores de socos ou sapatos pagavam 40 réis; os vendedores de “cousa branca ou negra” pagavam 40 réis; os vendedores de frutos ou hortaliças pagavam 20 réis; os vendedores de chapéus pagavam 40 réis; as padeiras de fora do concelho pagariam 20 réis; os comerciantes de bebidas ao quartilho pagariam 20 réis; as “frutadeiras” (vendedoras de fruta) de fora do concelho pagariam 10 réis; os negociantes de carne de porco seriam tributados em 20 réis; às peixeiras seriam cobrados 40 réis por cada carga; por cada carga de arroz ou bacalhau ou açúcar cobrava a Câmara 40 réis; cada carga de peixe grande era tributado a 40 réis; os vendedores de doçuras pagavam 20 réis; pelo negócio de cestaria eram cobrados 20 réis; os negociantes de tabuleiros, maceiras e gamelas pagavam 20 réis; o negócio de meias e carpins exercia-se com o pagamento de 10 réis e finalmente a retrosaria e negócios de seda pagavam 40 réis.

No ano seguinte, a 30 de Abril, era já presidente o carismático e bairrista João Vieira de Azevedo (cuja assinatura apresento na imagem), a Câmara haveria de se pronunciar novamente em relação à matéria das contribuições directas, indirectas ou mistas sobre as quais versavas o Código Administrativo Português. Neste contexto acordou o executivo camarário lançar a cada quartilho de vinho vendido nas tavernas das freguesias do concelho, o imposto de 1 real; por cada almude, 44 reais; por cada pipa, 968 réis. Estes impostos incidiam sobre “quem tiver loja aberta a ramo à porta e os mais proprietários poderão vender almudado livremente sem pagar direitos tanto na villa como no concelho”. Além desta resolução, o edil moimentense deliberou também que se aplicasse o imposto de 120 réis para cada almude de vinho que entrasse no concelho. A ideia era proteger e impulsionar os vitivinicultores locais pois fazia-se questão de vincar que aqueles que fossem naturais do concelho e produzissem dentro dos seus limites ou fora deles nada pagariam pela produção. O mesmo não acontecia os produtores de fora do concelho que produzissem em Moimenta.

Ainda no mesmo mês os membros da Câmara fiscalizaram os grémios da praça e mercados da vila e lavraram uma certidão onde constava que o alqueire de trigo se vendia a 620 réis; o alqueire de centeio era comercializado a 440 réis; o alqueire de milhão era vendido ao preço de 370 réis e o alqueire de feijão branco riscado vendia-se a 500 réis. Dois meses depois, a 17 de Junho, nova fiscalização. O alqueire de trigo descera para os 550 réis; o preço do alqueire de centeio manteve-se; o alqueire de milhão desceu para os 310 reis; o alqueire de cevada que não constava da fiscalização anterior era mercadejado a 160 réis e o alqueire de feijão vendia-se a menos 100 réis do que dois meses antes.

Além de tudo o já mencionado, importa referir ainda que havia alguns ofícios que tinham determinados privilégios de isenção. Era o caso do ofício de estanqueiro. Prova disso, em 16 de Janeiro de 1838 Joaquim José da Costa Araújo, pai do futuro conde da Lobata, apresentou à Câmara a sua carta de privilégios na qualidade de estanqueiro.

Importa sublinhar, a terminar, que esta matéria, e os ecos que dela ficaram, presta-se a compreender melhor o passado e também o presente, como seu subsidiário. Todo o passado deixa marcas e as sociedades do presente têm profundas ligações às sociedades do passado. Acresce para mais que as profissões mencionadas se prestam aos Ranchos Folclóricos do nosso concelho que quiserem ser fidedignos recuperadores da memória, da História, da etnografia e do folclore relativos ao século XIX.

Publicado na última edição do Jornal Terras do Demo

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma moeda com cerca de 500 anos encontrada na freguesia da Rua

Cada vez que uma moeda é encontrada na freguesia da Rua suspeita-se que seja oriunda do período Romano. O caso não é para menos. Nos últimos 300 anos foram muitas as moedas aí encontradas relativas a esse período. Pena é que a maior parte das vezes os objectos encontrados rumaram a outras paragens. Tal não acontecesse e hoje tínhamos na Rua abundante material para o estudo da numismática e também da história local. A romanização no concelho de Moimenta da Beira é indiscutível e na freguesia da Rua é cada vez mais uma verdade absoluta. Porém, nem todos os artefactos que ainda se vão encontrando no espaço cercanejo à capela de S. João, entre a Granja dos Oleiros e Vide, onde se crê ter existido uma cidadela romana, são do período clássico.

Há muitos outros vestígios, aparecidos nesse local, pertencentes a outras épocas da história. O que se compreende. Em regra, sempre houve tendência para uns povos ocuparem o espaço dos povos anteriores, por variadas razões, mas sobretudo porque a ocupação anterior se filiava a critérios de escolha que incidiam sobre os locais com as melhores propriedades de defesa e subsistência (férteis).

A moeda que recentemente me chegou às mãos, propriedade do Sr. Hélio Castro, da mencionada freguesia, está parcialmente carcomida e é portadora de pormenores que não a identificam à primeira vista. Esses escassos elementos foram, todavia, o suficiente para eu afastar logo as presunções de ser esta uma moeda romana. As moedas romanas, em circulação durante a maior parte da República e do Império Romano do Ocidente, incluíam o áureo de ouro; o denário de prata; o sestércio de bronze; o dupôndio de bronze; e o asse de cobre. Estas denominações foram utilizadas de meados do século II a.C. até meados do século III d.C. A moeda encontrada, visível nas imagens que apresento não corresponde a nenhuma destas.
Posta de parte, de imediato, a hipótese da filiação romana da moeda, também cedo percebi não se tratar de uma moeda leonesa ou muçulmana. Suspeitei estar na presença de uma moeda portuguesa, isto é forjada depois da constituição de Portugal como reino independente. Os elementos heráldicos que parcialmente se vislumbravam faziam-no crer como uma verdade quase absoluta. Mas que moeda seria? Foram várias as que se usaram depois do século XII, nomeadamente o morabitino (moeda árabe já anteriormente usada) a libra, o real branco, o ceitil, o espadim, o soldo, o dinheiro, o cruzado, o pataco, o vintém, o cinquinho, o dobrão, o tostão, entre muitas muitas outras.

As primeiras moedas portuguesas terão sido produzidas ainda no reinado de D. Afonso Henriques (embora continuassem a circular moedas romanas, leonesas e muçulmanas) certamente depois de ter sido reconhecido pelo Papa como rei. São pequenos espécimes feitos de bolhão, uma liga de cobre e de prata: o dinheiro e a medalha, esta valendo metade de um dinheiro. O dinheiro continuava a tradição do denário romano, que servira de união monetária do vasto Império e que os Bárbaros mantiveram depois da queda de Roma, em espécimes profundamente adulterados. Nos reinos da Europa Medieval corriam moedas idênticas ao dinheiro, que se manteve em circulação até ao final da primeira dinastia portuguesa. A palavra mealha, de onde vem a palavra mealheiro deixou de fabricar-se a partir de D. Afonso II (1211-1223), mas manteve-se engenhosamente na prática. Como a mealha era metade de um dinheiro, ao precisarem dela para trocos, cortavam aquele em duas metades... Essas moedas de bilhão tinham numa das faces a Cruz da Ordem do Templo. A partir de D. Sancho I, a cruz passou a ser cantonada por quatro cravos, evocando a que teriam pregado Jesus. Descobrem-se também nestas moedas os chamados sinais ocultos destinados a impedir a falsificação. A moeda encontrada na freguesia da Rua não parecia encaixar em nenhuma destas características. Continuei a estudar os reinados posteriores.

A partir de D. Afonso III aumentou consideravelmente a produção de dinheiros de bolhão, o que ficou a dever-se à política económica deste rei, criando feiras e mercados. Também D. Dinis continuou esta política incrementando o número de feiras e aumentando os privilégios aos feirantes e o numerário em circulação, indispensável ao comércio. Nos reinados seguintes continuaram a fabricar-se dinheiros de bolhão, denunciando uma carência de metais nobres em Portugal.

Estudar as moedas em circulação em todos os reinados era tarefa muito árdua, pelo que procurei comparar algumas moedas hoje depositadas nalguns museus com a moeda em estudo. A minha base de comparação foi o período moderno, aquele em que suspeitei desde o início filiar-se a moeda encontrada perto da capela de S. João. Pela cunhagem da moeda cheguei à conclusão de que era do reinado de D. Sebastião (1554 – 1578), o que veio a confirmar-se pela reconstituição dos elementos nela constantes. Além da cunhagem apresentar pormenores idênticos ao geral das moedas cunhadas durante esse período, foi possível completar os elementos em falta.

Se a face principal da moeda continha apenas um V (5) romano que aludia ao valor de 5 réis contendo legenda “SEXTAS DECIMUS REX”, o anverso não era anepigráfico, ou seja, possuía legenda que agora era fácil completar. Inicialmente conseguia ler apenas “SE… BIORUM…. Foi possível completá-la da seguinte forma: “SE[BASTIANUS] [REX ….] [ALGAR]BIORUM. Ao centro visualiza-se um escudo real coroado.

Trata-se, por conseguinte, de uma moeda com cerca de quinhentos anos, pertencente ao reinado de D. Sebastião, um período em que o numário é aumentado sobremaneira, e cunhada com as armas desse rei de Portugal e dos Algarves, como aparecia nos documentos e também nas moedas. É sem dúvida mais um elemento de grande importância para a freguesia da Rua e para o estudo da sua história local. É também mais um esparso que ajuda e de que maneira a compreender o povoamento de toda a sub-região compreendida entre os vales do Távora, Tedo e Varosa. No fim, é mais um vestígio que se presta a provar a multiplicidade e pluralidade de ocupações de uma terra com uma história muito rica e da qual continuam a brotar artefactos como que clamando por uma escavação que no futuro ponha esta terra na rota das que mais se prestam ao estudo das eras passadas.

Publicado na última edição do Jornal Terras do Demo

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um documento histórico para Moimenta da Beira sobre o pelourinho!

Pensou-se e propalou-se, durante muito tempo, e ainda hoje há resquícios dessa ideia, que Moimenta da Beira não tinha história. Tinha sido, até ao século XVIII, tão-somente, uma freguesia do couto de Leomil e, portanto, pertencia a este concelho. Isso é verdade na Idade Média, mas não o é na Época Moderna. O primeiro a tentar lutar contra esta ideia com o intuito de a desfazer foi Monsenhor A. Bento da Guia. Mas, mesmo ele, considerava que Moimenta da Beira só se tinha alcandorado com as honras de concelho quando se extinguiu o de Leomil, isto é, em meados do século XIX. Os meus estudos provaram o contrário e, ainda em vida, Monsenhor A. Bento da Guia transmitiu-me a sua satisfação pelo resultado das minhas descobertas, quer pessoalmente, quer na sessão pública do lançamento da monografia da vila de Leomil. O concelho de Moimenta da Beira foi criado não apenas quando se extinguiu o de Leomil mas sim quando foi extinto o couto de Leomil por ocasião da morte da condessa de Marialva sem descendentes, no século XVI, passando todas as propriedades senhoriais da família para a Coroa. Foi então que o maior Couto do Reino se desfez, e foi por essa ocasião também que a Coroa, agora proprietária, concedeu o dízimo das suas terras a determinadas instituições. Para dar um exemplo, o dízimo de Leomil foi pertença do mosteiro de Salzedas e da Sé Patriarcal de Lisboa, enquanto que o dízimo de Moimenta da Beira foi concedido à Universidade de Coimbra, a qual, por sua vez, se encarregava das obrigação, e não apenas direitos, de padroado.

Uma vez que a Universidade de Coimbra recebia os dízimos do concelho de Moimenta da Beira, já existente pelo menos desde o século XVI, teve a necessidade de tombar, isto é, colocar em tombo, uma relação exacta desses bens, com o fim de nenhum se perder. Esse processo de tombamento de bens ocorreu ao longo de toda a época moderna. Sabe-se ter existido um tombo do século XVII e há notícia de um tombo do século XVIII. Neste último foram tombados os bens dos concelhos de Moimenta da Beira, Castelo, Nagosa, Caria, entre outros. Neles há uma descrição precisa das confrontações entre as várias localidades, como o objectivo de se perceber onde confinava o dízimo de umas e outras. Nesse processo de delimitação dos dízimos foram seguidos escrupulosamente os limites antigos, representados por cruzes em fragas, penedias e paredes, e colocaram-se limites da época para assinalar o processo demarcatório, os quais eram de pedra lavrada de cantaria com robustas siglas VDE, abreviatura de “Universidade”. É por isso que bem perto de alguns desses marcos existem cruzes antiquíssimas.

Este processo de tombamento de bens não se restringia a propriedades fundiárias. A Universidade de Coimbra tinha também outro tipo de bens emprazados dentro das localidades que lhe deviam o dízimo. Era o caso de casas, palheiros, pardieiros e outros bens imóveis. Os rendeiros encontravam-se vinculados à Universidade por um contrato designado de prazo que, ao estilo medievo, podia estar consignado para diversas vidas, transcorrendo, assim, várias gerações. Em Moimenta da Beira eram vários os indivíduos que tinham na sua posse bens da Universidade, emprazados, pelos quais pagavam certas quantias de dinheiro. Quando no século XVIII a Universidade de Coimbra decide tombar todos os seus bens, inclui estes prazos e coloca neles os mesmos marcos de pedra lavrada de cantaria com letras VDE. É por isso que, ainda hoje, se encontram muitos destes marcos nalgumas casas, em parcelas de terreno dentro das localidades, e ainda nos adros e nas próprias igrejas matrizes, tal como aconteceu nas redondezas das igrejas de Moimenta e Paradinha. Tudo o que era propriedade sobre a qual incidia tributo pago à Universidade de Coimbra levou, no século XVIII, com a chancela VDE da Universidade do Mondego.

É numa destas demarcações de uma casa sita no centro histórico da vila de Moimenta da Beira, que encontrei a mais antiga referência conhecida ao pelourinho do concelho. Trata-se de uma descoberta importante pois quando me embrenhei na tarefa de dar a conhecer ao povo de Moimenta da Beira a memória do seu desaparecido pelourinho, houve quem, com cepticismo, duvidasse que Moimenta da Beira tinha possuído essa prova da ancestralidade do município. E se passou a ser um dado adquirido que Moimenta de facto teve pelourinho, pelas fontes do século XIX e XX existentes, a verdade é que se duvidava da existência do pelourinho em séculos anteriores. Sempre foi a minha convicção e intuição de que o pelourinho de Moimenta era bastante antigo. A verdade é que encontrei o documento que faltava para o provar. Segue-se a sua transcrição, em linguagem da época, como manda a Paleografia, ciência auxiliar da História que se dedica ao estudo e transcrição de documentos históricos:

“Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e setecentos e sincoenta e dous annos aos quinze dias do mês de Maio do dito anno nesta villa de Muymenta da Beyra comarca de Lamego junto ao polourinho da praça honde veyo o Doutor Thomas Gregorio de Carvalho juis dos tombos e demarcaçoens dos bens e fazendas da Universidade de Coimbra no destrito da Beyra Alta com Alçada por sua Magestade que Deos guarde etc. comigo escrivão e mais offeciaes do tombo e juntamente Francisco Xavier de Vasconcelos Loureiro mordomo da Universidade e procurador della neste tombo e por elle foi dito a elle doutor juis do tombo que entre os mais bens que pertencem aos passaes da igreja matris de Sam Joam Baptista desta villa de que a Universidade he padroeira e directo senhorio que vieram pera ella do conde de Marialva dos quoaes os senhores reis deste reyno lhe fizeram mercê como constava dos documentos e bullas apostólicas que se acham no cartório da mesma Universidade de que ella por seos rendeiros da renda que tem nesta villa desde tempo immemorial recebe os foros e dízimos de todos os frutos desta freguesia e suas anexas bem assim hera hum prazo de huma caza de sobrado com sua logea neste citio que huma Brazia Gonçalves viúva desta villa reconheceo na certidam do tombo antigo feito no anno de mil e seis centos e quatro livro primeiro folhas cento e trinta e duas […].

“Item huma caza de sobrado com sua logea e escada de pedra e seu piqueno rexio e seu cuberto pera a banda do norte digo poente no citio junto ao polourinho da praça desta villa na viella que vay do polourinho pera a capella da Senhora do Amparo e a entrada servintia da dita caza he pella dita viella e he telhada forrada e cayada por dentro e esta reedificada e tem sua jenella de acentos pera o poente sobre a dita viella e partem do nascente com cazas de Jose de Sarmento de Vasconcelos do lugar de Paredinha e do sul e poente com cazas do dito padre António Botelho e do norte partem com a dita viella. E sendo medidas por dentro tem do norte ao sul e pella banda do poente seis varas e quarta e do nascente o poente pella banda do sul tem de largo três varas e meia e do sul ao norte pello nascente tem seis varas e quarta // e pella banda do norte junto a porta da entrada tem de largo três varas e mea e todas as varas sam craveiras de sinco palmos e medidas em vam fora a grosura das paredes e na torça da porta se fizeram letras VDE que querem dizer Universidade e junto a escada no rexio pertencente a este prazo com pregam do porteiro se pregou hum marco com suas testemunhas que he de pedra lavrada de cantaria de sinco palmos de cumprido e palmo e meyo de largo com letras VDE […]”.

A nossa sede de concelho merecia esta reposição da memória. A História não deve ser utilizada abusivamente por uns e outros apenas para contar estórias transmitidas de boca em boca ao longo das gerações. A recuperação da memória pode e deve ter uma influência no presente, tal como aconteceu com a construção da réplica do pelourinho, hoje existente no terreiro das freiras, para que os de fora saibam que os de cá se preocupam com a História.

Publicado na última Edição do Jornal Terras do Demo

domingo, 10 de abril de 2011

A freguesia de Baldos em 1758

Segundo o redactor da descrição setecentista acerca desta freguesia redigida em 7 de Maio de 1758, Veríssimo Rebelo se chamava, a mesma contava com 99 habitantes. O cura da paróquia era escolhido anualmente pelo abade de Moimenta da Beira e ambas as localidades pagavam o dízimo à Universidade de Coimbra. A igreja do orago de S. Sebastião estava situada praticamente dentro da localidade. Os altares que esta albergava eram três, a saber: o do Santíssimo Sacramento, o do Menino Jesus e de N. Sra. do Rosário. Reza a descrição da igreja que a mesma não tinha naves nem era sede de nenhuma irmandade. Tinha, no entanto, algumas rendas que lhe eram confinadas: seis mil réis para a pensão do pároco, dois mil reis da renda de algumas casas, oitocentos mil réis para a doutrina, treze arráteis e meio de cera, vinte almudes de vinho, dois arráteis de sabão, vinte alqueires de centeio e outros vinte de trigo.

Situada num vale, a povoação de Baldos não tinha entre si beneficiados, conventos, hospital, misericórdia, correios, não tinha ermidas, nem tinha feiras. Pertencia à administração de Moimenta da Beira, o que equivale a dizer que estava adstrita à sua Câmara e à justiça própria, regida por um juiz de fora que realizava as audiências no Tribunal. Dela se descobria a povoação dos Arcozelos e de Aldeia de Nacomba.

No que toca às culturas dominantes, o redactor da aludida descrição, refere o centeio, o milho, o vinho, as castanhas, o azeite e alguns legumes. A água, esse bem vital desde que o mundo é mundo, é referenciada também pelo pároco descritor, quando este se refere à única fonte que a freguesia possuía no meio do povo, e que era utilizada para consumo caseiro e para a rega dos mimos de um mais que certo abundante granjeio.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O relógio de Sol do solar dos Viscondes de Balsemão

Situa-se em Leomil, no solar setecentista dos Viscondes de Balsemão e trata-se de um exemplar interessante. O seu enquadramento num conjunto edificado amplamente rico de aspectos ornamentais, levou a que não fosse destacado como mereceria. Trata-se de um dos poucos exemplares ainda existentes em Portugal. Não abundam os relógios de Sol como este e o seu estado de decomposição não se coaduna com a sua importância.

O relógio de Sol não apareceu num determinado momento isolado da história como uma descoberta repentina e extraordinária. Ao invés, desenvolveu-se lentamente como consequência do estudo dos movimentos aparentes do Sol na esfera celeste. Desde tempos remotos que o homem percebeu que poderia aproveitar a sombra provocada nos objectos pelo Sol. Ao perceber que a posição do astro rei era variável no tempo, chegou à conclusão também que ao longo do dia o tamanho das sombras variava. A origem do relógio de Sol, porém, é controversa. Para uns, situa-se nas grandes civilizações como a Mesopotâmia, e até a Caldeia a Babilónia e a China. Para outros, as origens remontam ao monumento megalítico de Stonehenge, na Inglaterra, o qual, segundo estas hipóteses, deixa claro o objectivo de identificar as épocas do ano, havendo alinhamentos de pedras coincidentes com o nascer e pôr-do-sol no início do Verão e do Inverno. A própria Bíblia cita relógios de sol nos livros de Reis e Isaías, provando a antiguidade do invento.

Desde os tempos primitivos que a sombra foi usada para estimar as horas (sombras moventes). Mais tarde a inovação ocorre com a utilização de uma vareta fincada no chão na posição vertical, a qual permitia estimativas das horas em função da variabilidade das sombras em momentos distintos do dia. Estava criado o pai de todos os relógios de Sol, o famoso Gnômon. Mais tarde a medição do tempo orientou-se para o calendário, sobretudo na identificação das estações do ano, imprescindível para as civilizações que praticavam a agricultura, dependendo esta dos factores climáticos directamente ligados às estações. Com a natural evolução das sociedades o dia foi dividido em horas, sobretudo devido à necessidade de marcação das práticas religiosas e algumas actividades leigas.

A evolução da estimativa do tempo, bem como dos aparelhos que lhe serviram de suporte foi uma constante ao longo da História. Em termos físicos e técnicos, um relógio de Sol é constituído por um objecto de espessura desprezável (o gnómon), que, quando exposto ao Sol, projecta a sua sombra numa superfície onde se encontra marcada uma escala devidamente graduada que nos indica as horas. Por conseguinte, o funcionamento do relógio de Sol baseia-se nas diferentes orientações e comprimentos da sombra do gnómon ao longo do dia, sendo de ressalvar que o percurso aparente do Sol ao longo do dia não é igual em todos os dias do ano, sendo a posição da Terra em rotação um elemento fulcral. No Inverno, como se sabe, a altura do Sol é menor e os dias são mais curtos, acontecendo exactamente o contrário no Verão.

No século XVIII, quando foi fabricado o relógio de sol do solar dos Viscondes de Balsemão, já eram conhecidas as teorias de Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Apolónio de Perga, Aristóteles, Aristarco, Eratóstenes, Hiparco, Ptolomeu, Marcus Philipus, Marcus Vitruvius, Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, entre outros. Por ocasião da Renascença em meados do século XV, com a invenção da imprensa no Ocidente (porque na China já tinha sido inventada), a divulgação científica de um modo geral, e portanto, a construção de relógios de sol, conheceu um grande impulso. Eram trabalhos que exigiam, além de habilidade artística, conhecimentos sobre o movimento aparente do sol e eram até então segredos bem guardados. Talvez por isso foram publicadas várias obras sobre o assunto. O próprio aparecimento dos relógios mecânicos no século XVI não chegou a abalar a posição dos relógios de sol, pois eram máquinas pouco precisas e que requeriam frequentes acertos, o que se fazia com a leitura do meio-dia nas "meridianas", que eram quadrantes solares que indicavam exclusivamente o meio-dia local. No século XVII, a Gnomónica chegou a constituir um ramo da educação.

Por tudo o que se tem vindo a dizer, é de referir que era praticamente impossível que o solar dos viscondes de Balsemão não possuísse relógio de sol. Além de se enquadrar com perfeição no estilo do edifício e na época de construção, importa considerar o proprietário do solar, certamente aquele que mandou gizar o esqueleto compositivo do edifício e naturalmente o relógio de sol.

Luís Pinto Sousa Coutinho nasceu em Leomil em 1735 e faleceu em 1804. Foi o 1.º visconde de Balsemão. Teve um percurso notável. Começou a carreira política em 1769, como governador e capitão-general de Cuiabá e Mato Grosso, cargo que ocupou até 1772. Depois do exercício dessa função foi enviado para Londres como ministro plenipotenciário de Portugal, ali permanecendo entre 1774 e 1778. Foi ainda primeiro-ministro durante o reinado de D. Maria I, entre 1788 e 1801, e de Agosto a Dezembro de 1803. Foi eleito membro da Royal Society of London pelo que além de político era também um destacado membro da ciência. Na verdade, Luís Pinto de Sousa Coutinho cursou matemática na Universidade de Coimbra e aparece nomeado como físico. Sabe-se que nunca enveredou pela carreira científica. Porém, enquanto responsável pelo exército, onde também se destacou, incrementou os trabalhos geodésicos, devendo-se-lhe o avanço da cartografia através de inovações tecnocientíficas. Pela natureza da sua função sempre foi uma pessoa inteirada das inovações da sua época. A título de exemplo, enquanto embaixador em Inglaterra, o Estado ordenou-lhe que aí se fabricassem instrumentos astronómicos, náuticos, geodésicos, entre outros.

O relógio de Sol do solar dos Viscondes de Balsemão, destinado a medir o tempo e por ele já carcomido, não parece ter tido a função que outros exemplares semelhantes ocuparam noutras localidades, isto é, a regulação da divisão da rega entre os terrenos da aldeia. Neste caso, e por se situar numa das habitações mais ricas da povoação, propriedade da família mais proeminente a nível local e certamente mandado construir pelo físico-matemático, Luís Pinto de Sousa Coutinho, é mais provável que tenha servido apenas o interesse privado da família, não descurando a sua mais que provável função de elemento decorativo. A racionalidade científica, típica das luzes em que se enquadra, está consonante com a racionalidade geométrica presente em toda a casa, nomeadamente nos portais setecentistas armoriados de onde se vislumbra uma frase em latim que um tanto curiosamente menciona o astro-rei: “Esta família tem mais brilho que a própria luz do sol”.

Trata-se, como na grande maioria dos casos, de um modelo simples, em pedra, com elementos parcialmente destruídos, não se vislumbrando motivos de decoração vegetal. Situa-se num patim à ilharga do primeiro piso colateral ao primeiro plano da reentrância e sem dúvida que faz parte de um património de importância capital do concelho que deve ser preservado pela história e memória que encerra.

terça-feira, 1 de março de 2011

A Lei da Separação em Moimenta da Beira

O jornal bi-semanário viseense, Povo Beirão, fazia em 1913 um ponto da situação relativamente aos ganhos com 3 anos da recém implantada República, os quais eram: a democratíssima Constituição; a chefia do Estado entregue a um patriota; a repressão do analfabetismo com o ensino primário obrigatório, abertura de 460 escolas novas e criação de missões móveis; melhoria financeira notável; defesa nacional aumentada com o serviço militar obrigatório e um acréscimo no fabrico de armas; fomento colonial através de várias concessões comerciais e agrícolas, abertura de escolas, reorganização do exército e da marinha colonial; benefícios à agricultura através do policiamento dos campos e funcionamento de várias caixas agrícolas; protecção às classes operárias com o direito à greve, abolição da décima industrial, lei dos acidentes no trabalho, 8 horas de trabalho em alguns serviços; novos caminhos de ferro; garantias de filiação com a Lei da família; protecção à infância com a criação de tutórias e de muitas cantinas escolares; colocação de vários faróis nas costas de Portugal e das colónias; melhoria nos portos comerciais; garantias ao casamento através da Lei do divórcio; abertura de novas estações de correio; protecção à mulher através da sua colocação em repartições públicas; incitamento à economia particular; benefício aos inquilinos; garantias à propriedade com 141 aquartelamentos da Guarda Republicana com 3600 homens espalhados pelo país; turismo, através da criação de uma estação de propaganda e facilidades alfandegárias; progresso cívico popular com 186 comemorações anuais; abolição da pena de morte aos militares; e a libertação das consciências com a Lei da Separação. Portugal, como se vê, transfigurou-se. Muitas destas realizações foram continuadas, prevalecendo até aos dias de hoje, como foi o caso da lei da separação, sobre a qual me centrarei de seguida.

"A partir da publicação do presente decreto, com força de lei, a religião católica apostólica romana deixa de ser a religião do Estado e todas as igrejas ou confissões religiosas são igualmente autorizadas, como legítimas agremiações particulares, desde que não ofendam a moral pública nem os princípios do direito político português." Este trecho da Lei de 20 de Abril de 1911, que consagrava a separação das igrejas do Estado, resume bem o seu principal objectivo: a laicidade. Foi um produto do governo da República provisório de onde constavam os seguintes nomes: Joaquim Teófilo Braga, António José de Almeida, Afonso Costa, José Relvas, António Xavier Correia Barreto, Amaro de Azevedo Gomes, Bernardino Machado, Manuel de Brito Camacho.

Com influências da legislação estrangeira, nomeadamente brasileira e francesa, não deixava de se adaptar ao fenómeno português. Começava por reconhecer e garantir a plena liberdade de consciência a todos os cidadãos portugueses e estrangeiros residentes em Portugal (art.º 1.°), declarando em seguida que a religião católica deixava de ser a religião do Estado e que todas as igrejas ou confissões religiosas eram igualmente autorizadas (art.º 2.°). Sendo assim, o Estado deixava de subsidiar o culto católico, extinguia as côngruas impostas aos cidadãos, considerava livre o culto de qualquer religião, permitindo que as casas a isso destinadas tivessem a aparência de templo, não autorizava qualquer acto de culto fora das igrejas, perseguia os que tentassem impedir a livre prática religiosa ou ofender os clérigos e punia os que, pela violência ou ameaça, quisessem constranger alguém a praticar ou a não praticar actos de culto religioso. De seguida, a lei cometia os encargos com o culto e entregava os respectivos rendimentos (com descontos para a assistência pública) a corporações de assistência e beneficência existentes, tais como, misericórdias, confrarias, irmandades, etc. ou a associações que, para o efeito, viessem a constituir-se (associações cultuais), não podendo aquele realizar-se sem a sua existência. Os padres seriam inelegíveis para membros das juntas de paróquia e para as direcções, administrações ou gerências das próprias corporações ou associações cultuais. Todo o culto era livre, dentro de determinados horários, com restrições derivadas da manutenção da ordem pública e cometidas às autoridades civis (caso de procissões, toque de sinos, exibição de ornamentos e insígnias religiosas, etc.).

A Lei da Separação tinha um cunho profundamente revolucionário, porventura o mais revolucionário de toda a legislação republicana. Retirava ao clero o poder decisório e administrativo do culto, entregando-o aos cidadãos, corporativamente organizados, procurando, com isso, reduzir o papel clerical ao de mero executante de decisões de outrem. A Igreja Católica não ficava apenas empobrecida e nivelada com todos os demais corpos existentes no país. Ficava reduzida a uma situação de subserviência frente ao povo católico como jamais tivera no passado, pelo menos no passado português. Por outro lado, a lei assentava no princípio de que a propriedade dita eclesiástica era, na realidade, propriedade nacional posta ao serviço da Igreja, princípio igualmente revolucionário. Procurava-se, de facto, laicizar o Estado e abater, de uma vez por todas, o poderio eclesiástico.

Neste quadro, a Administração do concelho de Moimenta da Beira, em conjunto com a Câmara Municipal, passou a dispor de livros destinados a arrolar toda a parte administrativa relacionada com o culto religioso do concelho. É possível que a maior parte dos documentos que então se produziram se tenha perdido. Dos que sobreviveram até aos nossos dias destaca-se uma cópia do rol lavrado numa folha do Ministério da Justiça e dos Cultos com os bens requeridos pela comissão encarregue de promover e sustentar o culto católico na freguesia do Sarzedo. Dele constam 13 itens que exararam as propriedades requeridas. A este documento somam-se várias folhas rasgadas presumivelmente de um livro de registo das missas anuais realizadas no concelho. Terão chegado aos paços do concelho, integrando posteriormente o seu Arquivo, em virtude da lei separacionista. Procurava-se, por certo, ter uma noção precisa e exacta das missas que estavam a cargo das Juntas de Paróquia.

O referido documento é precioso pois dá conta de como se processou esta importante mudança no sistema político e religioso de Moimenta da Beira. Pena é que os restantes tenham sido destruídos por mãos ignaras.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A simbólica rococó de um dos tectos do solar das Guedes

A entrada na Biblioteca Municipal Aquilino Ribeiro faz-se pela porta mais à esquerda da fachada principal do edifício. Transposta esta depara-se-nos um enorme tapete que ao jeito cortesão defende o chão granítico do solar. O tecto que se nos lobriga à destra, depois de subirmos os dois lances de escadas interiores que conduzem à entrada na sala de leitura, encontra-se pintado. Muito se disse acerca deste solar, uma referência para esta vila, mas muito pouca atenção se conferiu à interpretação da imagética e da simbólica presente nos tectos. Nada existe ao acaso. Se os dois tectos do solar foram mandados pintar pelos seus proprietários é necessário averiguar se alguma mensagem pretenderam transmitir ou indagar se eles nos permitem perceber características do pensamento ou da personalidade dos habitantes deste vetusto imóvel. Não é tarefa fácil e estará aí a explicação para o relativo anonimato de tão importantes motivos artísticos.

Começo por dizer que estes dois tectos, e sobretudo aquele a que me refiro concretamente, são dos mais, senão os mais, importantes vestígios da pintura rococó em tectos do concelho, e até da região. Além da composição central que ressalta à vista, onde figura um retrato de família, existem outras quatro que a cercam. Os quatro temas dominantes são a inocência, a alegria, a embriaguez e o amor.

INOCÊNCIA – Aparece uma figura num movimento gestual que certamente remete para a noção de inocência associada ao cometimento de uma falha inimputável. Só assim parece ter sentido o anjo que lhe está na retaguarda com uma espada, símbolo da justiça. Quererá tal composição alegórica significar que a inocência não deixa de passar pelo crivo da justiça.

ALEGRIA - Logo a seguir a à composição anterior aparece uma outra com seis figuras, entre cavalheiros e damas, em redor de uma mesa. O desgaste da policromia não deixa perceber que actividade aglutina os convivas mas tratar-se-á, é de supor, de algo que alegoricamente representa a alegria. De resto, a figura desproporcionalmente grande, na ilharga, que detém o quadro com a mensagem “Aleqria”, esboça um gesto quase imperceptível com o indicador para essa imagem. A alegria bizarra e a frivolidade exuberante são características profundamente rococós.

EMBRIAGUEZ – Uma das composições que não tem título é a que representa uma alegoria a Baco e a tudo o que ele representa. Uma enorme pipa que arca com uma figura extravagante de um desmedido nariz em corneta e uma mão empunhando um punhal de gume pronunciado, assistem a uma figura masculina, trajando à época com albardas de fidalgo, entre elas capa de folião e meias ao jeito de polainas, que extraí o líquido, vinho, por certo.

AMOR – Esta é, para mim, uma das mais importantes representações de todo o conjunto. “Omnia vicid amor”. Omnia teve diversos significados e um deles era a sua conotação com uma terra fictícia em jeito de paraíso. Omniah, a título de exemplo, é o significado árabe para o mundo prometido. Não é, porém, este o sentido de omnia no tecto do solar das Guedes. Omni, do latim omne, traduz a ideia de TUDO, TODOS. Omnimodo significa de todos os modos, omnicolor significa de todas as cores, omnipessoal significa de todas as pessoas ou para todas as pessoas. O prefixo omni foi usado desde tempos ancestrais, encontrando-se associado na Bíblia às três principais características de Deus: omnisciente (omnisciência – ciência de todas as coisas), omnipotente (omnipotência – poder de todas as coisas ou sobre todas as coisas, aquele que é todo poderoso), e omnipresente (presença em todos os lugares, presente em todas as coisas). Muitas outras são as palavras que utilizam esse prefixo, tal como Omnicracia (omni – todos ou tudo, kracia – governo) – governo de todos. De omnia vem também o vocábulo que ainda hoje se utiliza no Brasil, ómnibus, que significa veículo público, para transporte de todos e para quaisquer lugares. Por conseguinte, “Omnia vicid amor”, trata-se claramente de um verso de Virgílio que se encontra nas Éclogas, X, 69, que diz concretamente o seguinte: “omnia vincit amor”. Significa essa composição a personificação do amor, isto é, “o amor vence tudo”. É uma exaltação profunda do amor que remete para o ultrapassar de obstáculos. O amor aqui retratado é para o contexto epocal algo próprio do rococó, pois é em si um tema considerado profano. A composição central que assume as expensas do destaque retrata dois amantes ligados por esse sentimento profundo capaz de mover tudo, segundo o latino Virgílio. Ao lado, num plano inferior ao da figura que ostenta a frase encontra-se um careto que me parece significar a morte. Neste contexto, pretender-se-á advogar que o amor vence a morte ou perdura para além da morte.

Públio Virgílio Marão também conhecido como Vergílio ou Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), foi um poeta romano clássico, mais conhecido por três obras principais, as Éclogas (ou Bucólicas), as Geórgicas e Eneida - apesar de ter sido autor de vários outros poemas menores. Filho de um agricultor, Virgílio chegou a ser considerado como um dos maiores poetas de Roma. A referência à poética de Virgílio não de estranhar neste tecto. Em primeiro lugar porque o tema rococó do amor está ligado a comportamentos libertinos. O próprio Virgílio mantinha um amor sodomítico por dois escravos. Por outro lado, há toda uma série de links à cultura romana. Desde logo pelo uso do latim e depois por toda a decoração de floreados e figuras do domínio do fantástico que trajam à romana ou são figurações alegóricas de certos atributos de divindades romanas. A emblemática, figuração, e temática predominantes estão por conseguinte ligadas ao profano, com uma profusão de Roma clássica.

Tudo o que aparece representado neste tecto do solar moimentense está em profunda consonância com os motivos mais característicos da arte Rococó, os quais se direccionavam sobretudo para decoração de interiores e se focavam na despreocupada vida aristocrática e no romance alegre. Cenas galantes e da mitologia, bem como uma farta estilização naturalista do mundo vegetal em ornatos e molduras que podemos encontrar nas representações deste tecto, são profundamente rococós. Há uma tendência clara para romper com o domínio do religioso, o tema central e exacerbado do estilo de arte anterior, o Barroco.

Todo este espírito de libertinagem que encontra, neste período, profundas ligações ao pensamento racional esclarecido e iluminista setecentista leva-me a ver nestas pinturas e nos seus patrocinadores, o gérmen da corrente do pensamento liberal que haveria de fazer de Moimenta um alfobre de liberais.

Foi nos inícios do século XIX que o convento beneditino de N. Sra. da Purificação, vizinho do solar das Guedes, foi extinto por ordem do bispo de Lamego. São conhecidos os excessos das freiras de Moimenta pelo rapé (tabaco). Mas, na tradição oral perdura também a ideia dos excessos que as conventuais cometiam com alguns fidalgos proprietários dos solares erguidos de fronte e à ilharga. Poder-se-ão associar aos motivos libertinos dos tectos do solar das Guedes que figuram logo ali ao lado?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Entre pelourinho e cruzeiro: o património de Segões

Segões é uma das vinte freguesias que compõem o concelho de Moimenta da Beira. Talvez porque se trata de uma das que mais dista da sede concelhia, não se lhe tem dispensado a atenção que merece, sobretudo no que concerne ao seu conjunto patrimonial. Os 2,20 km2 de área onde está implantada apresentam-na como uma freguesia pequena, com uma massa humana a ultrapassar uma centena de indivíduos, mas indubitavelmente rica sob o ponto de vista da história, da arte, da cultura e da sociabilidade. A sua posição de transição entre os bispados de Viseu, Lamego e Guarda foi reconfigurada ao longo da História. É possível que em tempos mais remotos tenha pertencido a outros concelhos e vários foram também os municípios que viu soçobrar às mãos do tempo, das reformas e das conjunturas. Resistiu às vicissitudes de percurso, mantendo-se implantada nas margens do leito do Rio Paiva. Desde tempos imemoriais que estas águas truvas de sais procurados para doenças da pele, deslizam pelas suas planícies com uma calma absorta que liberta as substâncias necessárias à sua fertilização, constituindo o caudal necessário para pôr em marcha essas locomotivas ancestrais de transformação do cereal.


O património cultural, móvel ou imóvel, é múltiplo e compreende todas as edificações ou realizações humanas do passado. Não significa, pois, que solares e outros imóveis e até bens móveis que testemunhem a existência de modos de vida refinada próprias dos estratos mais elevados da sociedade, devam ofuscar a existência e importância de outro tipo de património relativo aos sectores mais baixos da sociedade. O património rural, religioso e civil tem um valor próprio que importa considerar. Segões é uma aldeia rica em património rural. Além dos moinhos de água, do fraguedo das eiras em granito puro da Beira, possui um cruzeiro notável, diversas alminhas, um templo católico de nota histórica e todo um casario de feição arcaica e rural que ombreia com um traçado não menos rústico numa doce emanação de passado.

Diz-se que o povoado de Segões remonta

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

António de Sèves

Nasceu a 17 de Fevereiro de 1895. Era filho do Dr. António Maria Augusto Pereira Sèves de Oliveira e de sua esposa D. Adelaide Estêvão de Sèves de Oliveira. Casou com D. Fernanda Malheiro Toscano de Sèves e faleceu, sem descendentes, a 16 de Maio de 1970 vítima de doença súbita, enquanto se encontrava num restaurante da capital. Residia, ao tempo, na Rua Praia da Vitória, na capital. A missa de corpo presente celebrou-se no altar de sua casa, no dia 17 de Maio de 1970, pelo Reverendo João Baptista Pinto Dias.

Formou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, no ano de 1914. Em 1923 concorreu para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas viu gorados os seus intentos pela sua destacada militância monárquica. Começou a sua carreira em 1927. Abriu em Lisboa um escritório de Advocacia, exercendo tal actividade com brilhantismo, conhecendo-se o seu sucesso no famigerado processo do Banco de Angola e Metrópole.

Três anos depois, em 26 de Agosto de 1927, foi nomeado cônsul de 3.ª classe de Portugal na Bélgica. Exerceu ainda os cargos de encarregado de negócios na Bélgica e no Brasil. Em 6 de Março de 1928 passa à Direcção-Geral dos Negócios Políticos e Diplomáticos; em 3 de Junho de 1929 é nomeado para a Secretaria Portuguesa da Sociedade das Nações. Em 25 de Julho de 1933 é empossado no cargo de Chefe Adjunto do Protocolo do Estado na Presidência da República. Em 9 de Dezembro do mesmo ano, é nomeado primeiro secretário da Legação, na Direcção Geral dos Negócios Políticos; adjunto ao Protocolo da Presidência da República, nessa data. Entre 1936 e 1937 esteve encarregado de negócio na Legação de Bruxelas. Em 30 de Dezembro de 1938 foi nomeado Conselheiro da Legação, em harmonia com o

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Filhos da Terra, Pais da República. Leomilenses no panorama republicano nacional, regional e local.

Sete dias depois de implantada a República reunia a autarquia moimentense, a título extraordinário, com o objectivo de deliberar sobre os últimos acontecimentos políticos. Deliberou o executivo, por unanimidade, aderir franca e lealmente à República, pondo-se à disposição do Sr. Administrador do concelho e comunicar essa decisão ao Presidente do Governo Provisório, ao Ministro do Interior e ao Governador Civil.

Noutra sessão extraordinária, presidida pelo Dr. José Antunes da Silva e Castro (viria a ser administrador do concelho) que aí se encontrava na companhia de muitos dos republicanos activos no concelho, vários elementos do povo e todos os funcionários municipais, foi escolhida, por aclamação, a Comissão Municipal Republicana para gerir os negócios da autarquia até ao aparecimento de uma corporação legalmente eleita pelo regime da República. Ficou constituída por: António Ferreira de Almeida; João de Almeida Galafura Carvalhais; David Rocha; Casimiro Martins; José de Almeida Leitão; Guilherme Bebiano; Domingos Portugal; D. José Coutinho de Lencastre; Joaquim Pinto; e Manuel Nina. Tomaram depois posse da mesa e procederam à eleição do presidente, por escrutínio secreto. Recaiu a escolha na figura de João de Almeida Galafura Carvalhais.

Prosseguiram os trabalhos, nesta sessão inaugural, e no fim, sob proposta da presidência deliberou-se ainda consignar um voto de louvor e agradecimento aos cidadãos da Vila de Leomil, “que há tantos annos e com a maior lealdade têm contribuído para o engrandecimento do Partido Republicano e para a difusão das ideias democráticas”.

A alusão a Leomil estava efectivamente relacionada com o forte núcleo republicano que se constituíra em redor de algumas famílias da vila, sendo crível que o triângulo maçónico que terá existido no concelho se localizasse aí.

Os proprietários do solar dos Coutinhos - Descendente de um dos ramos da família Coutinho a família Braga e Gomes, legítima proprietária do solar dos Coutinhos de Leomil, cedo se notabilizou como republicana. Sabe-se, inclusive, que encaixotou a pedra de armas que se encontra na confluência das fachadas do solar, como prova do repúdio pelos velhos títulos monárquicos da nobreza e fidalguia. A pedra de armas apenas ficou despojada do aludido caixote de madeira, quando o tempo apodreceu o material acarretando o seu auto-desmoronamento.

Além de republicanos, alguns elementos desta família eram afectos à maçonaria. Destacam-se as figuras de José Ribeiro Braga, avô da actual proprietária do solar, D. Maria Cândida Braga Guedes Gomes (a quem devo muitas das informações constantes aqui), conservador do Registo Predial da comarca de Lamego e mação; Joaquim Pereira Gomes, também avô da actual proprietária do solar, assim como seu filho Faustino Guedes Gomes, o qual foi membro do Conselho Municipal nos anos 40 e director e impulsionador do Jornal Voz de Leomil nos anos 80. Um derradeiro elemento desta família a relevar é Engrácia Ribeiro Braga. Republicana convicta, participou em comícios republicanos locais.

Família Paiva Gomes – Os irmãos Paiva Gomes que haveriam de se destacar como republicanos de gema, nasceram do enlace matrimonial entre José Gomes Ferreira Pinto (n. 18 de Setembro de 1840), proprietário e médico das câmaras de Vila Nova de Foz Côa, Trancoso e Moimenta da Beira, e da leomilense Maria Isabel de Paiva Gomes (n. 17 de Março de 1854). Tiveram sete filhos.

O investimento no progresso que esta família preconizou na sua terra foi particularmente evidente, nomeadamente através da fábrica da manteiga de Leomil e da empresa EAVT. As garridas cores com que decidiram pintar as suas camionetas, vermelho e verde, denunciam ainda as suas convicções republicanas.

Dos aludidos membros desta família, destaco, muito resumidamente, alguns. António de Paiva Gomes (1878-1939), desde logo. Médico de profissão iniciou a sua actividade profissional nas possessões coloniais portuguesas onde iniciou também e expandiu a sua actividade política. Aí chegou a fundar o jornal republicano O Incondicional e foi depois eleito presidente do Centro Republicano Couceiro da Costa, que chegou a ter 600 sócios. Foi deputado várias vezes, fazendo parte de todas as legislaturas até 1926, exceptuando a de Sidónio Pais, período em que esteve preso no forte de Elvas. Na Câmara dos Deputados integrou várias comissões parlamentares de Colónias, Finanças e Orçamento.

Foi ministro das Finanças (1919); ministro das Colónias por três vezes, entre 1920 e 1925, e integrou também o Conselho Superior das Colónias. Presidiu ao Conselho Superior da Administração Financeira do Estado (1924-1926) e ao Conselho Superior de Finanças. Foi senador do partido republicano a nível distrital e pertenceu, ainda, à Maçonaria, no seio da qual foi iniciado em 1904, na loja “Cruzeiro do Sul”, adoptando o nome de Câmara Pestana. Foi autor de várias obras redigidas entre 1909 e 1911.

Da família republicana Paiva Gomes merecem destaque, ainda, duas figuras. José de Paiva Gomes (1876-1933) militar distinto (alferes, depois tenente e coronel) e médico; governador-civil substituto do Porto (1911); chefe dos Serviços de Saúde de Timor (1920) e Governador interino de Timor (1921-1923). Ernesto de Paiva Gomes (1884-1967) foi empresário (proprietário da EAVT e da Fábrica da Manteiga de Leomil), tesoureiro da Fazenda Pública e tesoureiro interino da Câmara Municipal (1922). No seu escritório tinha um enorme busto da república, ao lado do qual figurava a bandeira a ele alusiva e com a qual foi sepultado. Foi um dos responsáveis pela vitória do general Humberto Delgado, em Leomil, nas eleições de 1958 (é avô do Sr. Prof. Doutor João Pedro Cunha Ribeiro a quem devo e agradeço algumas das informações aqui constantes).

Aos indivíduos referenciados acrescem muitas outras figuras e famílias que tiveram também uma intervenção destacada no panorama político local, regional e nacional, desde o primeiro modelo que a República parturiu até ao que hoje, cem anos depois vigora, encontrando-se esquecidas e ofuscadas por outras. Convirá proceder a esse exercício de rememoração!