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sábado, 30 de março de 2013

Porto da Nave


Porto da Nave, eis um nome curioso. Porto significa confluência, extremidade, passagem, para a Nave. Nave significa altiplano. É palavra antiga, de origem ibérica, ligúrica ou êuscara (basca), anterior à romanização e que portanto existe em Português como nave ou nava; em Italiano, nava; em Francês, nave e nef; no Espanhol, nava, em todas as línguas significando planície em região montanhosa ou não, acepção que é possível ainda encontrar em Vila Franca das Naves ou em Nave de Haver, no distrito da Guarda.
Asseverou o padre Joaquim de Azevedo que Porto da Nave fica no alto da serra de onde se descobrem muitos montes, que em tempos se podiam lavrar, ainda que frios e desabridos. Pão se semeava aqui muito. Hoje a folha de pão transformou-se em pradaria verde com cintilações prateadas das águas frias que brotam daí mesmo.
Urgueiras havia-as em todas as léguas, assim como tojos, carquejas e giestas. Foi sempre terra de fauna díspar: cabras, ovelhas, porcos, vacas, bois, muita caça, lebres, coelhos, perdizes, rolas, raposas e lobos.
            Apesar de lugar rústico, cimentado nos píncaros serranos, o povo é religioso, aí venerando N. Senhora de Fátima, com festividade no segundo Domingo de Agosto.
Não é muito difícil imaginar nesta localidade, o íncola, séculos antes, no seu quotidiano, a matar coelhos à moca e a queimar cepas nas querruvinhas dos montes; abrigando-se da neve ou da chuva com uma capucha pelas frontes ou palhoça pelos ombros, polainas até às coxas, socos de empenhas dobradas a desfilar por este solo bravio; de sacho erguido, a saltar paredes, furar pinheirais, canchar alpondras, esbarrondar açudes, encher os talhadoiros atidos ao seu cuidado; pinchar escalões, fragas e estrumeiras; despedir sacholadas em gatos ociosos que se engalfinhavam nos mios; alapar e esgrilar aos ecos de tamancadas sobre as lajes das corgas; continuar nas quelhas fora perseguindo as sombras rasteiras que buliam nos chavascais….
Esta é verdadeiramente uma terra que frequentemente desperta ensonada nos nevoeiros matinais típicos da sua situação altaneira, qual pastora na serra, à medida que a luz, de búzia e carugenta, se torna nítida. Ouvem-se ainda os espaçados més doloridos de gados encurralados ou alegres da fartura; roncares de jumentos, chios de carros belgas fora, campainhas telintando telintares finos como pedrinhas a fazer “cloque” quando derramadas sobre águas sornas.  
Pelo exposto, a breve trecho, Porto da Nave é uma das janelas preciosas que melhor nos atira as vistas para o impressionismo das telas paisagísticas do que melhor estético o concelho tem. E se na invernia é o belo horrível que aqui se nos depara, com as faíscas a dardejarem o solo rebombando em tempestades dos tempos de Noé, no Verão presenteia-se-nos um panorama de noites perfumadas e mornas, sob a farinhada da lua, alvoradas de rosas logo que os ponteiros alcançam as quatro horas, e raios soalheirentos com feixes que parecem ficção.

domingo, 22 de agosto de 2010

História geral do concelho de Moimenta da Beira

Alcandorado no sopé do planalto da Nave na Serra de Leomil o concelho de Moimenta da Beira está implantado numa zona granítica de transição e paisagem tipicamente beiraltinas com laivos do Douro. Na mancha serrana, tipicamente da Beira, e ribeirinha de águas vertentes para o Douro, instalaram-se sucessivas civilizações.

Pré-história e Proto-história (c. 2,5 milhões de anos a.C.- c. 4000 a.C.) – É sobretudo nos locais sertanejos da serra (Necrópole megalítica da Nave) que existe a maior quantidade de vestígios da pré-história, sobretudo relativas ao neolítico. Orcas, Dólmenes, Antas, menires, e tantos artefactos que foram encontrados nessas escavações. Relativamente à proto-história vários povos aqui se fixaram, como se comprova pelos vários povoados descobertos no concelho.

Idade Antiga (c. 4000 a. C – c. 395/476 d. C.) - Da Idade Antiga conhece-se a fixação romana pelas várias vias construídas neste concelho (ex. via romana de Carapito em direcção a Aldeia de Nacomba) e pela descoberta de inúmeros vestígios arqueológicos que assinalam a existência de um aglomerado populacional romano significativo na freguesia da Rua, denominado Rochela ou Arrochela. Esta presença massiva dos romanos nesta região haveria de influenciar a arquitectura funcional do período medievo, bem visível na edificação de uma ponte românica em Ariz, assim como a permanência do latim que influenciou, entre outras coisas, o nome Paçô, que deriva de Palatium e, mais tarde, na centúria de oitocentos, as inscrições de mais de uma centena de marcos da Universidade de Coimbra, a recebedora dos dízimos das paróquias de que era padroeira.

No século I da era cristã, o povo semita dispersou-se pelo império romano e instalou-se no couto de Leomil, um espaço integrador, multi-étnico e multi-religioso. Deu-se a essa comunidade o nome de Semitela. Na transição da Idade Antiga para a Idade Média, ocorreram as invasões bárbaras na Península Ibérica, tendo-se aqui fixado sobretudo os suevos e os visigodos. Da sua presença crê-se que os abrigos naturais existentes na serra possam ter sido por eles usados nesse período.

Idade Média (c. 476 d. C. – c. 1453) – Em 711 os Muçulmanos iniciam a conquista da Península Ibérica. Nos inícios do segundo milénio sobressai a figura de Hajib Almançor que entra pelas terras da actual Beira e degola todas as freiras do mosteiro de Arcas, já existente no século VI, e toma Lamego, Trancoso e Viseu. Destrói o castelo de Alcaria (Caria) e provavelmente o da vila Leomiri (Leomil) e Lobozaim (hoje Castelo Nagoza). No século XI, na sucessão readministrativa do território cristão, o conde D. Henrique e D. Teresa concederiam privilégios a várias povoações desta região. Entre elas, destaca-se a concessão de Lamosa (Caria) a Paio Mendes casado com Maria Garcia da estirpe do couto de Leomil e Garcia Rodrigues, filho de D. Rodrigo, senhor da honra de Fonseca e S. Martinho de Mouros, recebe o Couto de Leomil. É ainda deste período medievo, recorde-se, que datam as várias sepulturas escavadas na rocha que abundam no concelho.

Na Monarquia Luzitana, frei António Brandão garante que o Infante D. Henrique passou os anos da meninice “nas quintas de Cresconhe” onde recebeu treino militar de Egas Moniz que conjuntamente com seu irmão Mem Moniz era senhor da Honra de Caria e de muitos outros territórios na região de Lamego. Fora inclusivamente a sua viúva que fundou o mosteiro das Salzedas. Mais tarde, seria nas cortes de Lamego que o título de rei lhe viria a ser confirmado e, já rei, confirmaria a carta de couto de Leomil.

O couto de Leomil e a honra de Caria eram, por então, as povoações mais importantes com notória predominância de Leomil. Dada como couto aos irmãos cavaleiros D. Paio Rodrigues e Garcia Rodrigues, como recompensa dos serviços prestados na árdua empresa da reconquista logo trataram de dotar esse espaço de alguns privilégios como engodo para agilizar e apressar o processo de ocupação sistemática do território. Logo depois, Garcia Rodrigues outorga foral a Leomil que passa a ser designado de vila e concelho.

As alianças matrimoniais dos couteiros herdeiros com a família Fonseca e o facto de se afirmarem como bons cavaleiros, permitiu-lhes entrar ao serviço do infantado da Coroa, conseguindo doações e aumentando ainda mais o seu património. Passaram a ser designados de “coitinhos” em alusão ao pequeno senhorio de Leomil, couto pequenino, aumentado-o de tal forma que no século XIV viria a ser o maior no Reino com 276 km2.

Nesse espaço os Coutinhos detinham um poder considerável que se materializava na picota erguida perto do Outeiro em Leomil, onde existe uma fonte com o mesmo nome.

Idade Moderna (c. 1453/1492 – c. 1789) – Praticamente todas as povoações que integram hoje o concelho de Moimenta da Beira já existiam na Idade Média. A Idade Moderna foi, contudo, um período de profundas transformações urbanísticas e arquitectónicas, sobretudo nos centros mais importantes, nomeadamente em Leomil, Moimenta e Rua. Uma das muitas relíquias históricas, passíveis de contemplação, esta na transição da Idade Média para o período moderno, é o convento franciscano de Caria/Rua que terá sido o primeiro da Congregação da Ordem Terceira Regular em Portugal, erigido na Quinta do Ribeiro. Aí se fundou o convento em 1443.

No século XVI as praças cívicas e políticas são readaptadas ou construídas noutros locais. Em Moimenta da Beira cria-se o terreiro das freiras à sombra do convento beneditino aí fundado em 1598 por Fernão Mergulhão. Da invocação de N. Sra. da Purificação é de traça maneirista, barroca e rococó. Nesta altura também é edificado o pelourinho do estilo bola, e a casa da Moimenta. Em Leomil, os serviços administrativos do concelho passam do Outeiro para a praça onde se ergue um robusto pelourinho do estilo gaiola (imóvel de interesse público desde 11-10-1933), e é construída a casa da Câmara que ainda hoje mantém grande parte da traça original, com destaque para a esbelta varanda alpendrada apoiada em duas severas colunas dóricas. Na Rua, que se desmembra de Caria, aparece aquele que é o único monumento classificado como de interesse nacional existente no actual concelho de Moimenta da Beira, desde 1915. Filia-se ao estilo tabuleiro e possui característica do estilo estravagante.

No século XVI-XVII destaca-se a construção do solar dos Lucenas-Mergulhões em Leomil. O edifício encontra-se hoje arruinado mas mantém ainda uma bela janela balconada em esquina, sustentada por uma magnífica coluna cilíndrica com base fuste e capitel jónico de duas volutas, encimados por uma pronunicada gárgula.

Durante o século XVIII, e espelhando a plêiade de famílias que se fixam no actual concelho de Moimenta da Beira (Morais Sarmentos, Carvalhais, Guedes, Menas, Falcões, Almeidas, Gouveias), são edificados solares de vetusto aspecto, dos quais convém destacar o solar das Guedes, palacete de arquitectura civil privada do século XVIII que pertence ao estilo rococó, e o solar dos Sarmentos, também setecentista, parcialmente destruído durante as invasões francesas. Destaque ainda para a bela Fonte da Pipa, da mesma centúria, de que se diz que quem beber dela cá fica.

Em Leomil dois edifícios são de ressaltar. Em primeiro lugar o solar dos Viscondes de Balsemão, setecentista, o qual se filia ao estilo barroco final já com laivos de rococó com um objectivo claro de comover e impressionar o espectador. De seguida, merece menção o solar da família Coutinho, edifício setecentista com pormenores artísticos notáveis, de onde sobressai a portentosa pedra de armas na confluência de duas fachadas.

No que respeita à arquitectura religiosa merece destaque o mosteiro de S. Torcato que regista uma devoção antiga, com uma romaria muito concorrida desde tempos remotos em virtude das competências milagreiras do santo. Neste contexto é forçoso referir ainda a igreja matriz de Santiago de Leomil. É provavelmente a mais antiga do concelho. Deve ter sido este templo um ponto de passagem das romarias que se realizavam a Compostela.

Idade Contemporânea (c.1789 – aos nossos dias) – Fustigado pelas invasões francesas, o actual concelho de Moimenta da Beira sofreu inúmeras transformações durante as lutas liberais, nomeadamente a extinção dos vários concelhos e respectiva incorporação no de Moimenta. O ideal liberal consolidou-se e nos fins do século XIX e inícios do século XX foram vários os moimentenses que comungaram do ideal republicano ajudando à implantação deste regime a nível nacional, regional e local.

Acrescem a todas estas referências outros imóveis, tal como outros patrimónios, nomeadamente o natural, o gastronómico e o humano. Nem todos foi possível referir, mas todos são importantes.

Publicado na última edição do Jornal Terras do Demo

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Convento de S. Francisco

Seria o convento dos capuchinhos de Caria um terreno memorial virginalmente desataviado se Aquilino lhe não tivesse loxodromiamente fincado a pena. Se infernos há para os monumentos, o convento de S. Francisco está a despedir-se do purgatório com vaticínios de abismo. Na Geografia Sentimental já Aquilino, imagine-se, o referia.

Se Aquilino reproduz, no prelo, convicções, narra também vivências com realismo. Delas avulta, com naturalidade, o convento de S. Francisco de Caria, um dos ex-libris das Terras do Demo. Muito embora impere a dimensão romancesca e ficcionária da história que as suas reminiscências e criatividade parturiram, tranches há da obra aquiliniana de puro desafio ao Khronos: com narração histórica, com pretensões de objectividade, com fitos de realismo.

Saindo de Moimenta com determinação monacal, rumo às terras de Caria, volvem-se cerca de quatro quilómetros até que se impõe retirar a tala asinina da destra para subir a rodovia que bordeja o espaço onde antigamente o íncola realizava a feira em honra, ou honrada, pelo patrono do convento que tiros de calhandrina ajuizam de cercanejo: S. Francisco. Metendo por uma vereda que dá à estrada que conduz a Caria, segue um trilho que a fauna avícola, pondo termo à calma absorta, rasga em tons melódicos proceros de chamamento prestadio, parecendo entender o carácter prestameiro da cultura que ali o nosso espírito representa, conduzindo-nos ao núcleo do eremitério franciscano.

Atravessada a quinta por esta via, reclina-se suavemente pela encosta, numa compilação florística, hoje muito diferente do que já foi. Arvoredos verdejantes e floridos com matagais, em doces emanações de fescura que as águas brotam e deslizam a seus pés, e leiras fecundas onde outrora cresciam mimos pujantes e hortas viçosas. Bonita e bem lavada de ares constantes, esta é uma quinta de quietude patriarcal, de viver provinciano. O pronunciado declive tem um pico, onde se ergue altaneiro e senhoril um miradouro, que olha das alturas a líquida fita coleante que se alonga por entre alcantis agrestes e prados verdejantes. Daí lobrigam-se sem fusco, serranias churras, pinheirais, cristas pedregosas e ainda vários povoados.

Olhando em redor aprisionam-se os sentidos e por ali ficamos, estáticos, como sôfregos na retrinca. Cada recanto de feição rural revela a ancianidade do local. Olhar para estas aguarelas com olhos de ver, é viajar por várias dimensões e rememorar as idades esquecidas, os legados que ainda não findaram. Uma destas, entre muitas relíquias históricas, passíveis de contemplação, é o convento franciscano que terá sido o primeiro da Congregação da Ordem Terceira Regular em Portugal, erigido a sudeste do actual concelho de Moimenta da Beira, num espaço que, pelo menos ao longo da época moderna, passou a ser designado de Quinta do Ribeiro, em alusão mais que provável ao pequeno curso de água que por ali ponteia. Na sua essência, ela resulta da anexação da Quinta do Paço (Paço dos Bulários), dos senhores de Távora, doada aos frades da Ordem Terceira de São Francisco pelo rico e nobre Pedro Gil para a erecção de um convento o qual aí se fundou em 1443. Ao que consta o Sumo Pontífice, Eugénio IV entregou pastoral ao bispo em forma de bula Noveretis nos super, dando posse da igreja aos religiosos que nela celebraram a primeira missa em 28 de Agosto de 1445, dia de Santo Agostinho.

Este eremitério cedo se constituiu como um centro fecundo de renovação cristã, frequentado por uma turbe de fiéis em busca de sacramentos. Além do convento, com duas estruturas físicas – igreja e casa residencial dos frades - divisam-se neste amplo e fértil espaço um solar com vários anexos transformados em Escola Profissional Tecnológica e Agrária, além de um tanque, uma fonte, um pombal e a capela de Nossa Senhora da Conceição.

Louçainho de ricos pormenores de antanho que o mugre fétido parasitamente procura elidir, possidente, o convento encontra-se, hoje, em sepultura de vala aberta. O esqueleto que dele resta está apossado da sôfrega natureza, rubuste milhafre que o abocanha e suga. Sem suficiência, porém, para esconder ricos pormenores de antanho que a incúria do tempo e dos homens não conseguiu letificamente fazer ruir. Da igreja avulta, de nariz arrebitado, altaneira e senhoril, uma torre sineira de três secções verticais que se elevam da base através de colunas de pedraria uniformemente talhada, que suportam o peso de todo o conjunto. Com janelas circunferenciais e quadrangulares de pequena bordadura granítica exterior, destinadas à luminescência, sobressai o derradeiro elemento seccional, cimeiro, ligeiramente mais estreito, como aquele que mais ornatos permite esquadrinhar. Os quatro cunhais de pilastras quadrangulares, onde convergem as paredes deste elemento seccional quadrifacetado, terminam em jeito de capitel onde assentam quatro lintéis que servem de base ao telhado de cujos vértices saem quatro gárgulas em forma de corneta. Cada uma das faces desta torre possui quatro aberturas em janela pronunciada de onde se vislumbravam e irradiava a equissonância de sineiras composições.

O resto da igreja apresenta-se sob duas faces. A do meio, contígua à torre, assume a centralidade do edifício. A reentrância do portal de ampla quadratura inicia-se com arco de três arestas ladeado de cunhais encimados de remate. Segue-se uma portentosa janela rectangular com bordadura exterior, como todas as outras do edifício, por onde se fazia a iluminação do interior. Ombreia com duas outras, igualmente de traçado rectangular mas com menor área, que estreitecem para dentro, isto é, com traçado oblíquo na espessura da parede em jeito de lancis de quebra-luz. Termina o conjunto em telhado triangular de face ornada com arco semi circunferencial a guardar nicho granítico de traçado esbéltico, assente em base saliente e suportado por pequenas colunas de base fuste e capitel, destinado, por certo, ao patrono. A outra face, no cerne de dois poderosos cunhais, autênticas longarinas, comporta um portal robusto, de menor área do que o anterior, em conjunto quadrangular encimado de janela circunferencial elevada a cerca de 6 metros.

Em virtude do desaparecimento quase total da sua documentação, sabe-se deste cenóbio praticamente apenas que foi extinto no século XIX por ocasião da extinção das ordens religiosas. Em 1919 Amândio Campos adquire-o a Margarida Nápoles Alpoim mas posteriormente inicia-se a sua degradação e pilhagem das suas pertenças.

O convento franciscano, que possuía um recheio cultual notável, era um foco de onde irradiava religiosidade, aí se realizando várias celebrações litúrgicas bastante concorridas. Era, também, o lugar preferido para último repouso das famílias principais, a que nem sempre reagiu com agrado o reitor da paróquia ruense. Pouco se sabe acerca dos quantitativos da comunidade franciscana de Caria. Neste particular, sabe-se apenas que em 1587 o abade de Alcobaça, frei Guilherme da Paixão, visitou a Terceira Ordem de S. Francisco, encontrando no convento de Caria 17 frades.

É de referências como estas que convém sair ao encalce, palminhando um longo trilho, uma via sinuosa, com madeiro de inspiração crística engalispado nas costas, rumo ao conhecimento cabal da história de um erimitério que ocupou uma posição central na narrativa de mestre Aquilino e enfileira hoje entre os monumentos de incontornável valia no panorama artístico-monumental moimentense.

domingo, 4 de julho de 2010

"A História da Nossa Terra!" - CDR: 65 anos

Clube de Desporto e Recreio de Moimenta da Beira: 65 anos

O Clube de Desporto e Recreio tem sido desde sempre o clube mais representativo do concelho. Sem menosprezo de outras colectividades da região, no seu seio floresceram atletas de qualidade reconhecida a nível nacional. A sua história, como todas as organizações desportivas, é feita de altos e baixos, e não é pelo facto de no presente ano ter descido de divisão que não se deve reconhecer o seu meritório trabalho cultural e recreativo em prol dos moimentenses e relembrar todos aqueles que desde a fundação deram o seu contributo, o seu esforço, a sua dedicação a essa causa: o desporto. Parabéns ao CDR!
Sempre se jogou futebol em Moimenta da Beira. Porém, quando o clube passou a encarar o desporto futebolístico com mais seriedade foi necessário criar outras condições para a sua prática, nomeadamente a construção de um complexo desportivo, o qual veio a localizar-se no sítio do matão. Sabe-se que em 22 de Dezembro de 1960, como referia o número 118 do jornal Correio Beirão, estava quase concluído esse campo, graças à colaboração da empresa Luso-Dana. Esta empresa tinha a cargo o aproveitamento hidro-eléctrico do Rio Távora, pelo que foi aproveitada a sua presença e trabalho no concelho para o desbravamento da difícil estrutura física do Matão, sobretudo a remoção dos enormes rochedos que obstruíam o terreno. Um compressor abriu os furos necessários com recurso a pessoal especializado da mencionada empresa. O plano incial do CDR e da Câmara Municipal englobava a construção de outros campos e ainda balneários.
O presidente do clube era à época Manuel Gomes de Matos que encontrou como colaborador activo Eduardo Requeijo Alves. A população moimentense não poderá também ser esquecida porquanto foram autores de um apreciável labor na tarefa de retirar várias toneladas de pedra que vieram a ser empregues na edificação dos balneários. No que concerne ao serviço inicial de terraplanagem, ele foi executado com um caterpillar alugado a uma empresa particular. Nestes anos 60, por este e outros trabalhos de desobstrução, tinham-se já gasto 20 contos.
Para inaugurar o novo espaço desportivo realizou-se no dia 22 de Janeiro de 1961 um jogo de futebol no campo do Matão que opôs à equipa do CDR a formação do Armamar. Empolgados com o novo espaço, os atletas da casa venceram por 3-1. Diria a imprensa da época, reiteradamente rejubilando com o recém criado complexo: começou a funcionar o Campo do Matão. Parece que se acertou agora com um local definitivo para o Campo de Desportos. E aquele lugar, o da Pedra do Brinco de tempos idos agora que a Pedra foi desfeita, deixou de ser refúgio de crianças e passou a ser centro vitalizador de jovens. E assim, vai crescendo Moimenta. O Desporto é um óptimo processo de aperfeiçoamento cristão. O que é preciso é que ele não fique reservado a uma dúzia de jogadores, que haja muito quem jogue que faça ginástica, que nunca o campo se encontre sozinho. O grande campo abre perspectivas largas e novas aos jovens cristãos de Moimenta. Ali poderemos viver horas de evolução e amizade, lutando e vencendo sem ferir, sem magoar, sem insultar… Ali lutaremos para vencer, para ser mais fortes e mais amigos em Cristo. Por isso, honra e Glória seja prestada a todos quantos trabalharam pelo campo do Matão.
Em Abril o CDR aceitaria colaborar com os mordomos das festividades em honra do padroeiro da vila. A comissão de festas promoveu um desafio de futebol no Campo do Matão com o fito de juntar os sempre escassos tostões para suportar as despesas das celebrações joaninas. O saldo final cifrou-se em 700 escudos, valor que mostra bem a aderência e envolvência massiva das gentes de Moimenta neste evento. Diriam os mordomos à comunicação social: apraz-nos citar e agradecer as facilidades dadas com alegria e boa disposição sem reticências, o que facilitou a colaboração dos jogadores de Moimenta para o maior brilho das festas joaninas. O desafio opôs os atletas do CDR à equipa de Lamego. Da comissão de Festas faziam parte José Cunha Salgueiro; Valentim Salgueiro Augusto; José Fernandes Soares e António Duarte Pereira.
Eram outros tempos. Tempos em que as gentes do interior beirão dispunham de poucas actividades de recreio e lazer, o que naturalmente explica a sua grande envolvência nas escassas actividades que iam aprecendo. A afluência ao Matão foi de tal ordem que até o director do Jornal Correio Beirão, o saudoso padre Bento, aproveitaria para vincar o bairrismo dos seus paroquianos, asseverando o seguinte: verificou-se a nota curiosa de algumas pessoas que não vão à igreja, que se dizem descrentes; mas, embora tenham chegado quase no fim do desafio, quiseram espontaneamente pagar o seu bilhete atendendo a que o dinheiro era para as festas de S. João.
O CDR foi trilhando o seu caminho e em 1967 ascendeu à 1.ª divisão distrital onde tem quase sempre militado. Não podendo aí militar na próxima época desportiva não duvido que estará para breve o seu regresso ao escalão mais alto do futebol distrital.

Autor: Jaime Ricardo Gouveia

Publicado na última edição do Jornal Terras do Demo

segunda-feira, 14 de junho de 2010

«A História da Nossa Terra!» - Póvoa Velha, Bravilamte, Beira Valente e sua confraria do Divino Espírito Santo

Beira Valente está ligada a Leomil por uma estrada que em 1910 Julião Morais Sarmento tentou que fosse prolongada até Castelo. A Câmara fez um projecto mas ficou-se por aí. Atravessada pela via, reclina-se suavemente pela encosta da Barra, entre casarios numa compilação urbanística ao jeito medievo. Em redor da povoação combinam arvoredos verdejantes e floridos com lameiras de pascigo, em doces emanações de fescura que lhe envia o ribeiro que desliza a seus pés, remançoso e cristalino, entre as leiras fecundas onde crescem mimos pujantes e hortas viçosas.
Bonita e bem lavada de ares é uma aldeia de quietude patriarcal de viver provinciano. Galgando a estrada que em pronunciado declive atravessa o primitivo povoado, deparam-se-nos rústicas habitações. Assente no pico do monte, ergue-se altaneira e senhoril esta aldeia, olhando das alturas a líquida fita coleante que se alonga por entre alcantis agrestes e prados verdejantes. Ao cimo da empinada ladeira aparece-nos de fronte a capela, uma das maiores relíquias de antanho de que esta povoação é depositária. A bordá-la encontra-se o magnífico adro suportado pela portentosa fonte.
Os recantos e ruelas de feição rural revelam a ancianidade da povoação e o seu carácter estético deve-se em parte ao seu isolamento que a via melhorada que a liga à vizinha povoação do Sarzedo, outrora pertencente ao concelho de Leomil, veio ajudar a combater. Para lá da Barra, até ao horizonte infindo, um panorama maravilhoso, vastíssimo, cuja contemplação avassalada pela grandiosidade da paisagem deslumbra pelo encantamento que nos traz ao olhar. Colmas, cursos de água, matagais, pontes, estradas, casais, muros e valados, tudo parece impreciso e de ilimitada grandeza naquele marchetado tapete de variegado colorido e inconcebível variedade de desenhos.
Beira Valente te-se-à chamado, em tempos remotos, Póvoa Velha. Isso parece indicar um documento de 1335 que diz “da Poboa Velha per u chamam Beyra Varenta.” O nome alude à antiguidade do povoamento deste local. Na verdade, próximo existe o local designado de Cargancho, já perto do parque industrial do concelho, onde foram encontrados vários vestígios arqueológicos. No censo joanino de 1527 aparece já com o nome “quymtam de Bravilamte.” Em 1758 na Memória Paroquial de Leomil figura como metade pertencente ao concelho de Leomil e outra metade pertencente ao concelho de Castelo.
A sua capela, bordejada por um magnífico adro, teve uma célebre confraria devota ao Divino Espírito Santo mas que celebrava também a festividade de Santa Bárbara e S. Sebastião. Do património que possuía destacam-se imagens, ornamentos e móveis, um forno e rendimentos fundiários. Os vestígios destas associações religiosas são antiquíssimos. O valor da sua contribuição para a dignidade e esplendor do culto público é inegável, e a sua contribuição no exercício da acção social e os primeiros ensaios de previdência e assistência públicas, altamente beneméritas.
As confrarias foram uma das formas de vivência colectiva mais importantes e singulares do Antigo Regime, tanto nas cidades como nos meios rurais. Associações de laicos mas com carácter religioso, reuniam de modo organizado um certo número de pessoas. Estabeleciam-se com um objectivo pio, social, cultual e cultural. Os mais humildes e de mais fracos recursos encontrariam na confraria a família artificial que os integrava e acolhia, criando-lhes ou fortalecendo-lhes as raízes sociais e humanas. Irmanavam-se. Tinham a certeza de serem visitados na doença, na velhice, e sufragados na morte. Para os que tinham alguns recursos as confrarias eram um meio de ascensão. Por fim, os mais opulentos, encontravam nas confrarias um espaço que lhes permitia manifestar a sua riqueza – ostentando-a ou prodigalizando-a.
Pela análise das receitas e despesas da confraria do Divino Espírito Santo de Beira Valente, possibilitada pelos registos que dela ficaram lavrados, uma das maiores preocupações eram as festividades. A sua função assistencial era também manifesta, uma vez que o exercício das obras de piedade ou de caridade estavam inerentes à função religiosa, porquanto uma das pedras basilares do cristianismo é a ajuda mútua entre irmãos. As confraternidades eram assim uma forma de sociabilidade apreciável. Constituíam um lugar de pretexto para reunião, encontro, troca de ideias e emoções, experiências e preocupações. Eram ainda um veículo de expressão da colectividade, onde se dava largas a um dinamismo muitas vezes contido por não ter onde se evidenciar. E, ainda, um móbil que tornava a vida mais cheia, quebrando a rotina quotidiana. Talvez por isso a sede do concelho, Leomil, tivesse cinco: Santíssimo Sacramentos; Fiéis de Deus; Nossa Senhora; Nome de Jesus e N. Senhora dos Passos.
É crível que a confraria de Beira Valente tenha sido criada durante a época moderna, pelo triunfo, nesse período, de novas devoções e de movimentos confraternais de carácter mais cultual e religioso, mais litúrgico do que assistencial, criando-se uma interligação mais funcional e íntima entre confrarias e paróquias. Quando terá sido extinta? Não se sabe, mas possivelmente por alturas da legislação liberal, possivelmente com o novo quadro normativo republicano.
A maioria dos elementos da irmandade do Divino Espírito Santo de Beira Valente eram leigos, incluíndo apenas alguns clérigos. Estes, serviam sobretudo como escrivães, mordomos e juízes. Não existiam mulheres confrades. O cabido geral, assembleia dos confrades, era o principal órgão administrativo da confraria e reunia nos meses de Primavera e Verão, coincidentes com as festividades do santo patrono.
O juiz desta confraria era, em regra, o pároco de Castelo, existindo depois um mordomo e um escrivão. Nalguns casos, quem dirigia as sessões era o pároco de Leomil, mas sempre por comissão do padre de Castelo. Certamente que existiriam também os ofícios de tesoureiro, procurador e andador, mas sobre eles nada se sabe. A eleição dos mordomos efectuava-se na presença do pároco de Castelo e realizava-se na sacristia da capela. Os cargos eram apenas honoríficos, exceptuando o de andador. Em regra, cargos mais proeminentes eram ocupados pelos mesmos indivíduos durante largos anos.
A partir de 1839, aparecem nesta confraria novos oficiais: regedor e presidente da Junta de Paróquia, secretário e tesoureiro. Em 1818 a confraria despendia 3200 réis com o sermão da festa do Espírito Santo. A despesa mais avultada era relativa às festividades da aldeia – 478.650 réis entre 1798-1850, 37% da despesa total, seguindo-se os gastos com a capela, 18,3%, depois os gastos com a cera, 190.575 réis no mesmo período, depois os concertos do forno e finalmente outras despesas menores tais como a compra de sabão, azeite, vinho etc.
A confraria era auto-suficiente e a sua situação económica era estável. A sua existência girava em torno da festa do padroeiro. Tudo o resto era conducente à concretização daqueles objectivos. Tinha um património próprio, de alfaias religiosas e outras, um forno e uma leira. Era esse forno que suportava todas as suas despesas. Entre 1798 e 1850 rendeu 1.443.655 réis, ou seja, 93% do rendimento total da confraria.

Autor: Jaime Ricardo Gouveia

domingo, 6 de junho de 2010

«A História da Nossa Terra» - As 52 amas de leite da Roda de Moimenta da Beira

É comum ouvir que antigamente as pessoas viviam muitos anos, que os jovens apenas iniciavam a sua convivência sexual depois de celebrado o casamento, que a violência é um fenómeno recente e que as sociedades antigas eram muito mais regradas. A história mostra que isso é mentira. Como errada é a ideia de que a assistência social aos pobres, aos desvalidos e aos desprotegidos é uma coisa dos nossos dias. Não é. Não apenas várias associações confraternais foram criadas nas eras passadas com objectivos assistenciais como ainda por parte da cúspide do poder político, nacional, regional e local foram decretadas e postas em marcha uma plêiade de medidas nesse campo. Um dos mecanismos surgidos na Época Moderna no campo do combate ao infanticídio e protecção à infância, foi a criação do ofício das amas de leite e as rodas, objectos existentes em determinados edifícios que serviam para “expor” ou “entregar” crianças enjeitadas. Sobre eles centrar-se-à este artigo.
O costume de abandonar crianças à porta de famílias endinheiradas na tentativa de que as criassem, foi prática rotineira desde os tempos mais remotos. Porém, nalguns casos, essa acção foi fatal, pois conhecem-se casos em que os bebés eram devorados por cães esfomeados que pela ruas vagueavam. O que motivava os pais a abandonarem os filhos em determinadas portas era a esperança de nunca perderem rasto à criança, o que não aconteceria na roda.
A primeira “roda de expostos” de que há notícia já estaria em movimento em 1188 na cidade francesa de Marselha. Em Portugal, existiram desde cedo inúmeras rodas em determinadas casas, conventos e outras instituições religiosas, sendo a sua existência reconhecida pelo poder político e objecto de medidas legais. Em regra, as Câmaras Municipais tinham os seus “Regulamentos dos Expostos”, cabendo-lhes suportar as despesas com as rodas, as amas de leite, curativos e funerais. Daí que muitas delas, na escassez de meios, entregassem as crianças a rodas de outros municípios. Porém, foi pelo cunho de D. Maria I e Diogo Inácio de Pina Manique (fundador da Casa Pia em 1781) que a roda foi revestida de algum oficialismo.
A exposição frequente, que decorria do elevado índice de nascimentos, legítimos e ilegítimos, baseava-se na esperança ou desejo de que a criança fosse cuidada e criada. A pobreza, a miséria e o produto de uma relação ilegal eram geralmente as razões que ditavam a entrega dos recém nascidos, a que se somavam outras de ordem social moral e económica.
As Casas da Roda não eram fixas, mudando de sítio ao longo do tempo, tal como aconteceu em Moimenta da Beira. Funcionavam durante todo o dia, muito embora a maior parte dos bebés fosse entregue no decorrer da noite, para que não se descobrisse a identidade dos progenitores. Era essa a grande vantagem das rodas: estimulava a prática da “exposição” em detrimento do infanticídio, garantindo a sobrevivência da criança num processo sigiloso que salvaguardava o anonimato dos pais. Um pequeno sino assinalaria a presença da criança que faria a mulher “rodeira” girar a roda e proceder à sua recolha no interior. Essas instituições tinham sempre prontas várias mortalhas, já que algumas das crianças eram expostas sem vida.
Em regra, os bebés eram depositados com um enxoval, alimentos, objectos ou símbolos mágico-religiosos e pequenos bilhetes com indicações ou recomendações como o nome com que deveriam ser baptizados. Após a recolha das crianças era-lhes atribuído um número e recebiam um nome, normalmente do santo ou santa que se venerava nesse dia. Os mais debilitados, temendo-se que falecessem, eram de imediato baptizados. Em circunstâncias normais ficariam à guarda da Casa da Roda até serem entregues a uma ama de leite.
As amas de leite eram pagas pela Câmara. A disponibilidade ou não de mulheres para o exercício deste ofício variava consoante os municípios. Na falta delas, chegou-se a conceder benefício aos seus maridos, tais como isenções de impostos e de serviço militar. Para suprir a escassez de amas, alguns municípios chegaram mesmo a comprar gado para a obtenção de leite.
A figura da ama de leite não era apenas um ofício usado nos contextos sociais e económicos referidos. A ama interna era, na Europa Central, a solução preferida nos meios da nobreza e da grande burguesia, tal como se pode visualizar no quadro que apresento de Charles Beaubrun, feito por volta de 1640, que representa o futuro Luís XIV e sua ama de leite (encontra-se em Versalhes no Musée National du Château et des Trianons). Ter ama possibilitava à mãe uma maior liberdade para a prossecução das suas tarefas quotidianas, além de que a vida conjugal não era afectada por uma abstinência sexual durante o largo período da aleitação. À época, acreditava-se que as relações sexuais corrompiam o leite, o que colocava o homem perante duas soluções: buscar amores clandestinos ou arriscar e pôr em causa a vida do filho. Talvez por isso muitas mulheres enjeitassem a aleitação.
A aleitação que ultrapassasse os motivos assistenciais, não era uma prática por todos aceite. Francisco da Fonseca Henriques, médico de D. João V, escrevera no Socorro Delphico: “[...] lastima he que a pomposa vaidadeda gente preza esta maravilhosa obra da divina providencia, negando contra os dictames da razão, e contra as leys da mesma natureza, a seus filhos o proprio leyte […] entregando-os a amas”. A maior parte dos tratados médicos referiam que para ser ama de leite uma mulher dever-se-ia livrar das “payxoens de animo porque viciam tanto o leite que causam acidentes epilepticos nos meninos”. Por imperativos de ordem moral, as amas deveriam ser casadas. As relações sexuais estavam-lhe interditas durante o aleitamento. Todavia, não o cumpriam, pelo que algumas foram expulsas. Mas este ofício não trazia apenas desvantagens. Entendia-se que a boa criação dependia do leite, o leite do sangue e o sangue da comida, pelo que muitas das amas satisfariam as carências alimentares de muitos anos, talvez de uma vida.
Através de um rol da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, não datado, mas que presumo ser do século XIX, sabe-se que eram 52 as amas de leite a quem a autarquia pagava a aleitação. Algumas residiam fora do concelho. Este número expressivo faz presumir uma alta taxa de natalidade e sobretudo uma alta taxa de “enjeitamento”. Se a exposição de crianças advinha de relações proibidas tal apontará ainda para uma alta taxa de ilegitimidade. Seguem-se as amas segundo a sua residência: Moimenta – Rosa Joaquina; Maria Jorge; Ana Barradas; Maria da Conceição; Maria Matilde; Ana da Conceição; Umbelina de Jesus; Maria Gesta; Leonor do Nascimento; Josefa Jesus; Aldeia – Margarida Baptista; Luísa Maria; Maria da Assunção; Arcozelo – Maria Teresa; Rosa Carlota; Gertrudes Maria; Baldos – Piedade Pereira; Matilde Rosa; Beira Valente – Maria Pereira; Antónia Pereira; Ana Cândida; Carapito – Maria Joaquina; Castelo – Luísa de Jesus; Vitorina do Carmo; Ana do Carmo; Ana do Carmo; Cabaços – Maria da Encarnação; Ana Gomes; Justina Rosa; Paradinha – Ana de Figueiredo; Ana Josefa; Ana da Encarnação; Maria Eufrásia; Penedono – Maria Lima; Ponte – Sebastiana Lourença; Teresa de Jesus; Rita Ferreira; Constança Rosa; Teresa de Jesus; Sarzedo – Maria José; Maria do Céu; Ana Machado; Maria Cardoso; Maria José; Cecília Rosa; Tabosa – Rita Sousa; Toitão – Ângela Angelina; Josefa Maria; Maria Delfina; Vilar – Umbelina de Jesus; Maria Rita; Maria Carolina.

Autor: Jaime Ricardo Gouveia

terça-feira, 25 de maio de 2010

«A História da Nossa Terra» - O foral do Souto, concelho pertencente ao Couto de Leomil

As origens do municipalismo na Península Ibérica são diversas e complexas. No processo evolutivo continuado que evidenciaram, manifestaram múltiplas fases, com distintas características entre si. Sobre a origem institucional dos municípios não há, entre os historiadores, unanimidade, figurando nas matrizes municipalistas ora origens latinas, ora bárbaras, ora visigóticas, mouriscas, e ainda outras. Certo é que as comunidades, mesmo as que existiam há mais de um milénio atrás, necessitaram de se agregar em núcleos e de estabelecer regras de conduta. Porém, verifica-se que num determinado território inscrito nos mesmos limites, coexistiam múltiplas tradições, diversas regras e distintos usos e costumes. O direito consuetudinário e costumeiro - o direito com base no costume - foi o aquele que avultou dessa necessidade de fixação jurídica, de dotação de lei aos espaços povoados.
No período de reconquista cristã da Península Ibérica aos mouros foram estabelecidas novas estruturas de poder. Um dos instrumentos que concorreu para a concepção do reino como um todo defendido e povoado foram os forais. Com uma certa dose de autonomia mas regradas hierarquicamente sob os padrões feudais, as várias franjas populacionais estavam subordinadas entre si por relações de vassalagem, isto é, de poder, económico, político, judicial, adminstrativo, etc... Um aldeão - servo da gleba - prestava vassalagem e estava dependente de um senhor feudal, nobre, por norma. Por seu turno, este, prestava vassalagem e estava sob a autoridade de outro senhor nobre, que ocupava a cúspide da pirâmide social, o Rei. O Rei era o senhor feudal, cujo senhorio, ou domínio, constituía um reino.
Os forais velhos, ou antigos, eram, por conseguinte, diplomas normativo-jurídicos concedidos pelo Rei, ou por outro senhor que detivesse plenos direitos sobre a localidade a que se destinava o foral, tal como um nobre, um cenóbio ou um antístite. Desses documentos divisavam-se vários objectivos, entre os quais estava a dotação de estatutos político-concelhios a determinado território, impondo as regras fiscais, judiciais, económicas, entre outras. Com certos laivos do Direito Romano e do Codex Visighorum, alguns dos forais não esqueceram os usos e costumes típicos da comunidade a que respeitavam. As liberdades e garantias que alguns concediam às populações visavam atrair o povoamento.
Na aurora do período moderno, os forais, diplomas multisseculares, alguns dos quais já adulterados, outros rotos e integralmente desactualizados, foram revistos. Integrava-se essa reforma numa concepção legislativa mais vasta, que esteve na base do surgimento de uma plêiade de códigos normativos, nomeadamente as Ordenações Manuelinas, o Regimentos dos Pesos, o Regimento dos Oficiais das Cidades, Vilas e Lugares..., entre outros. D. João II e D. Manuel foram os reformadores. Em apenas dois reinados conseguiram estabelecer as bases da administração local do reino que viria a vigorar cerca de três centenas de anos.
O Couto de Leomil, criado ainda antes da fundação da nacionalidade, foi parar às mãos dos Coutinhos, assim designados pelo senhorio que detinham, inicialmente pequenino, e depois transformado e aumentado, vindo a ser o maior do reino. Vários eram os concelhos que integravam este senhorio. Um deles era o concelho do Souto. Concelho desde tempos antigos teve foral velho que foi revisto e reformado no período moderno por D. Manuel.
Este foral está intitulado como adstrito ao Couto de Leomil porque D. Fernando, no século XIV, doou a povoação de Souto a Vasco Coutinho, pai de Gonçalo Vasques Coutinho e avô do ilustre Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço. O aludido nobre, senhor do Couto de Leomil, era titulado por Marialva, daí que o próprio foral do Souto faça referência à terra de Marialva. Segue-se, abaixo, a transcrição do foral que apresento na figura.
“Foral do Souto do Couto de Leomil por composição antiga. E assy havemos d'aver do concelho do Souto, segumdo a composiçam amtiga, estes dereitos per bem da qual composiçam e avemça há-de pagar cada morador do dito lugar hum alqueire de pan da medida d'agora: três quartas de cemteo e huma de trigo e em denheiro oyto reaaes. O qual dereito foy chamado antigamento paradas assy neste lugar como nos outros comarcaãos. E pagam mais por dia de Mayo, de colheita trezemtos reaaes repartidos per todos beens que há no dito lugar ora sejam moradores demtro no comcelho ora fora. E per este respeito pagam as ditas parada do pam o denheiro acima contheudo as pessoas de fora que hy têm beens pera o deverem de pagar, posto que hy nam vivam, sem embargo de nenhum privillégio que tenham, posto que clérigos sejam. E nam se paga hy portagens nem outro dereito real. E os montados e maninhos seram do comcelho. E o gado do vemto quamdo se perder será do senhorio amdando em pregam segundo a nossa ordenaçam com declaraçam etc. assy como em Marialva se conthém.”
Como se percebe, este foral incide sobretudo na reforma das obrigações fiscais dos moradores, assim como outras de natureza económica e judicial. Faz alusão ao senhorio que pertencia aos Coutinhos, senhores de Marialva a quem cabia a posse do gado do vento, isto é, os animais que andavam a monte, perdidos ou sem dono. Refere ainda os direitos que eram devidos ao rei assim como os relativos ao concelho, caso dos montados e maninhos que eram terrenos incultos, particulares, da Coroa e mesmo do município, cuja utilização originou desde sempre inúmeras contendas que chegaram até hoje através da polemológica questão dos baldios.
O Souto é hoje uma freguesia do concelho de Penedono, cujo castelo está também ligado à família dos Coutinhos, senhores de Leomil. Tem 15 km² de área e segundo os censos de 2001 comporta cerca de 400 habitantes. Da freguesia constam ainda os lugares da Trancosã, Mozinhos, Risca e pela anexa Arcas que conta com cerca 120 habitantes, distando 2 kms da sede de freguesia. De fundação antiga, a povoação de Souto está situada no cimo de um pequeno vale formado pelo Rio Torto, destacando-se a Sul a presença do Monte que em tempos foi designado de “Fonte de D. Clara”, fortaleza natural das comunidades que o escolheram para se fixarem. A presença de comunidades humanas nesse local está comprovada pela existência de vestígios que apontam para um castro erguido na Idade do Ferro.
Souto e Arcas têm um património que nos fala do seu passado, de onde se destaca a Torre do Relógio; a Capela do Divino Espírito Santo; a Capela de Santa Apolónia; a Fonte de Mergulho; a Cova da Moura; as alminhas e o Guardião do Monte Airoso. Por fim, uma fonte histórica de incontornável valor: o pelourinho, testemunho da autonomia do poder municipal, erguido na praça da vila, possivelmente logo após ter recebido o foral manuelino. O monumento é constituído por plataforma com soco de 4 degraus de planta quadrangular, coluna de fuste oitavado com cerca de 3 metros, despojado de qualquer elemento decorativo, e remate piramidal precedido de cornija de dupla moldura que contorna o capitel de secção quadrada, ostentando escudo com as armas de Portugal. Notam-se vestígios de ferros de sujeição. É um pelourinho do estilo pinha.
O estudo e publicação das mencionadas fontes históricas, de onde avultam os forais, é uma oportunidade única para reavivar alguns traços da memória e para reforçar a ligação com o passado, enriquecendo a identidade cultural das gerações presentes e futuras.

Autor: Jaime Ricardo Gouveia

terça-feira, 11 de maio de 2010

«A História da Nossa Terra» - As origens do nome Semitela

Na Portela, em Leomil, metemos por um caminho íngreme de cuja altitude se faz vista boa para a ribeira do Nozedo e volvidos alguns minutos estamos na Semitela. Terra de aragens constantes, situa-se na meia encosta numa das saias da Serra. Juntamente com Beira Valente e Paraduça forma a tríade de anexas da vila de Leomil. Serranias churras, pinheirais, lá ao cimo nas cristas pedregosas. Leiras verdejantes em jeitos de frescura, corriscos de água pondo termo à calma absorta, cá e lá em baixo. Num e noutro sítios crescem soutos com bravura e ao lado espreitam muros de silvas, musgos e outros líquenes. Nós estamos ali “agora”. Eles estão ali desde “ontem”. Nós contemplamos o que vemos. Eles escondem silêncios remotos. O vale, no estendal do granjeio, acolhe os assobios dos pássaros numa orquestra onde cores e sons se fundem. Reter certas luzes do sol a pôr-se, ver certos muros de torres em ruína faz pressentir pavores ancestrais, atrás de calhaus à espreita dos medos surrateiros, talvez semíticos. A paz que ali se pressente é como a dos pousios, apenas sacolejada pelas águas a borbulhar nos caminhos, direitas aos mimos dos granjeios. Hortas, pastagens, searas, colgaduras de estevas e rosmaninhos fazem parte um habitat variado por onde esbraveja uma fauna díspar. Olhar para estas aguarelas com olhos de ver, é viajar por várias dimensões e rememorar as idades esquecidas, os legados que ainda não findaram.
O povo da Semitela (Semit = semitas + tela = ideia de povoado) é a prova cabal da presença semítica ancestral (judaica e árabe) na nossa região. O termo semita tem como principal designação o conjunto linguístico composto por uma família de vários povos, entre os quais se destacam os árabes e hebreus, que compartilham as mesmas origens culturais. A origem da palavra semita vem de uma expressão no Génesis da Bíblia que se refere à linhagem de descendentes de Sem (Semitas), filho de Noé. Modernamente, as línguas semíticas estão incluídas na família camito-semítica.
Historicamente, esses povos tiveram grande influência cultural, pois as três grandes religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo- possuem raízes semitas. Não se poderá dizer que os semitas eram um povo étnico homogéneo, devido às suas migrações. Assim, são muitas as línguas que compõem a família semítica, com destaque para as seguintes: acadiano, ugarítico, fenício, hebraico, aramaico, árabe, etíope, egípcio, somali, gala, haúça. Por conseguinte, entre os antigos povos de fala semítica estão os arameus, assírios, babilônios, sírios, hebreus e fenícios.
Os semitas são originários da Etiópia ou Arábia e actualmente ocupam parte do Médio Oriente desde o Mar Vermelho até ao planalto iraniano. A primeira religião monoteísta do mundo, a religião judaica, surgiu entre os hebreus antigos nas colinas próximas ao Mediterrâneo durante os conflitos contra os cananeus e moabitas. Sofreram depois diversas invasões e a religião tornou-se o principal elo entre si. No século I da era cristã, os judeus acabaram por se dispersar pelo império romano ao qual passaram a pertencer, dando origem a uma diáspora. Nessa diáspora vieram para a Península Ibérica e uma comunidade instalou-se no couto de Leomil, um espaço integrador, multi-étnico e multi-religioso.
O local onde se instalou terá sido no sopé da serra, nas imediações da sede jurídico-administrativa do Couto, dando-se a essa comunidade o nome de Semitela. Etnicamente os árabes também são semitas, por isso Semitela, que designa urbe de semitas, tanto poderá referir-se a um pequeno povoado de judeus como de árabes ou de ambos em conjunto. Por esse modo, é crível que a povoação da Semitela remonte ao período da conquista ou reconquista da Península Ibérica. Semitela é um nome pelo qual os próprios semitas não se intitulariam. É algo externo a eles próprios. É uma designação de cristãos sobre os outros povos étnico-religiosos. Daí que seja mais plausível que a Semitela tenha sido constituída na época da reconquista cristã.
De facto esta terra ter-se-á designado assim pela comunidade semítica que ali se fixou. A vila de Leomil tinha em tempos remotos, como todos os povoados de relevo, portas de entrada e saída. O que não se sabe é se a vila era ou não amuralhada. Essa realidade ficou para a posteridade na toponímia. A “Portela”, hoje uma zona residencial, mais não era do que uma pequena porta que assinalava não os limites da vila, mas o início do povoado. O local chamado “Chão da Porta” que corresponde hoje a um bairro novo da vila de Leomil, terá sido, também, um local onde se localizava uma porta de entrada para a sede do Couto. Refiro-me obviamente ao período medievo, onde a circulação e entrada na terra dos senhores feudais, sobretudo no domínio senhorial, reserva ou terra domenicata, pagava imposto. Daí a importância de portas por onde se controlava a entrada de determinados indivíduos em trânsito que deveriam pagar portagem. A Semitela fazia portanto parte do Couto de Leomil, mas fora da urbe, o que se percebe. Os judeus aí residentes não viveriam dentro da sede do Couto senão numa comunidade à parte, algo distante. Mais tarde, vieram a deslocar-se para o arrabalde da vila e constituíram as judiarias de Leomil, no cancelo e no guardal.
Poder-se-á ainda equacionar outra hipótese. O latim “Semitella”, como reflecte Almeida Fernandes no célebre trabalho “Toponímia Portuguesa”, poderá ser diminutivo de “semita” com significado de “senda” ou “atalho”. Seguindo ainda a evolução linguística da toponímia poder-se-á conjecturar que “heremitella” de “heremita” relacionada com um templo terá dado origem a “eremitella”, depois “esmitella” e finalmente “Semitella”.
A Semitela foi sempre, na verdade, uma pequena comunidade e nunca deixou de pertencer a Leomil: primeiro ao Couto, depois ao concelho e hoje à freguesia. Poucos são os documentos que dela nos falam. Mas os poucos que a ela se referem apontam precisamente para a sua pequenez. É o caso, a título de exemplo, da monografia oitocentista do Padre Carvalho da Costa, onde consta que essa paróquia tinha ermida de Santo António e aí viviam 12 vizinhos. Apesar de pequena é terra de grande importância para se perceber a diversidade religiosa e matriz cultural desta sub-região.


Autor: Jaime Ricardo Gouveia

terça-feira, 23 de março de 2010

«Crónica» - "A História da Nossa Terra"

Os leomilenses e o cognome de Judeus
O judaísmo é a única religião da antiguidade pré-clássica que persiste nos dias de hoje e foi a primeira religião monoteísta. O Judaísmo português é ainda muito pouco conhecido, ignorando-se, entre muitas outras coisas, o nome dos seus maiores pensadores e místicos. A ideia geral que se tem está vinculada à perseguição que lhes lançou a Inquisição criada no reino luso em 1536. É um conhecimento simplista e não condicente com a verdadeira importância que a comunidade judaica teve em Portugal.
A importância do judaísmo em Portugal é desde logo apreensível na arte, tendo os pintores Nunes Gonçalves e Vasco Fernandes (Grão Vasco), representado judeus. Sinal de que o judaísmo esteve omnipresente no nosso meio local é a alcunha que hoje os habitantes de Leomil têm: Judeus. Não se trata de uma alcunha depreciativa pois qualquer leomilense tem honra em assumi-la, muito embora a maior parte não saiba explicar o porquê de tal apelido. Trata-se de uma tradição que se arreigou, persistiu e para a qual há 3 teorias.
1 – Durante um sermão na época da Páscoa, condenando o pouco fervor dos leomilenses que não cumpriam as suas obrigações cristãs, um padre tê-los-à epítetado de judeus.
2 – Em tempos antigos, uma epidemia grassava com intensidade na região. Em Leomil atacou, sem piedade, três gerações da família Malta. Maria Malta, alarmada por alguns casos fatais, fez uma promessa. Se os Malta escapassem ela faria uma encarnação nova à imagem já velha e desbotada de um santo. A verdade é que a família foi poupada e Maria Malta cumpriu o prometido. Contratou um artista que pintou o tal santo mas com cores tão garridas e carnavalescas que ninguém em Leomil aprovou. Alvo de duríssimas críticas e murmúrios chocantes Maria Malta não aguenta o ambiente de má-língua e desloca-se à igreja em busca de perdão. No entanto, desorientada finca as unhas nas faces da imagem esfregando-a até desfazer o vivo das cores. É então que os leomilenses apercebendo-se do que acontecera passam a chamá-la judia, e o nome mais tarde passa para toda a população.
3- Em Leomil há um sítio chamado do cancelo e outro chamado guardal. Esses sítios foram judiarias e pelo facto dos judeus se terem misturado com os cristãos inclusive os que pertenciam às famílias proeminentes a nível local, todos os habitantes passaram a ser chamados de judeus.
A teoria que me parece mais verosímil é a terceira. Depois da destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d. C começou a maior Diáspora dos judeus que se universalizaram e passaram a constituir pequenas comunidades dentro de outros estados. É crível que tenha sido por esta altura que se fixaram na Península Ibérica, onde permaneceram até aos tempos da reconquista cristã, na qual participaram activamente ao povoarem os territórios reconquistados pelos cristãos.
Leomil foi, nos tempos da reconquista, tomada aos mouros pelo conde D. Henrique juntamente com os irmãos cavaleiros D. Paio Rodrigues e Garcia Rodrigues e fora desde logo instituída como Couto, doado a Garcia Rodrigues como recompensa dos serviços prestados na árdua empresa da reconquista. Um Couto era uma porção de terra demarcada, dada pelo rei à Igreja ou à nobreza, com certas isenções e privilégios.
De entre esses privilégios do Couto de Leomil que no século XIV se transforma no maior do Reino com 276 km2 e uma população de 6060 habitantes, destaca-se o facto de os senhores do Couto deterem um poder extremo e considerável que se estendia a todos os campos, inclusive ao da justiça. Neste seguimento os Coutos eram espaços verdadeiramente autónomos porquanto os funcionários judiciais do rei não poderiam aí entrar a menos que o senhor proprietário autorizasse. Se um qualquer condenado fugisse e entrasse no Couto, ficaria a salvo, pois enquanto aí permanecesse os funcionários do rei, como não poderiam aí entrar, estavam impedidos de capturá-lo. Esta era uma importante estratégia para atrair o povoamento. E, por esta razão, os Coutos foram em certa medida espaços de integração, de diversidade cultural, étnica e religiosa. Assim, portanto, as minorias religiosas como os judeus, eram efectivamente atraídos para estes Coutos, o que aconteceu em Leomil onde existiu uma comunidade judaica que aí constituiu uma judiaria.
A comunidade judaica leomilense já existia na Idade Média, mas com a chegada a partir dos inícios do século XVI de determinadas famílias como os Lucenas, ela persiste e é aumentada. Contudo, a partir do século XVI a convivência entre cristãos e judeus não mais seria pacífica. O anti judaísmo de cariz religioso e mental agravou-se com a expulsão dos judeus de Espanha decretado em 1492, pois grande parte deles refugiam-se em Portugal. Tendo-se acentuado a instabilidade social contra os judeus nos últimos tempos do reinado de D. João II, D. Manuel por razões de política peninsular e por razões sociais internas, decretou a expulsão de hereges, mouros e judeus em 5 de Dezembro de 1496. Para evitar a saída, grande parte deles, em 1497, converteram-se em massa, passando a ser designados de cristãos-novos. Porém, na prática, continuaram judeus convictos.
A actividade da Inquisição portuguesa, dedicou-se maioritariamente, à perseguição dos falsos conversos, isto é, os cristãos-novos que mantinham crenças e actos judaicos. Foram vários os indivíduos processados por judaísmo no concelho de Moimenta da Beira. Esses processos estão na Direcção Geral de Arquivos Torre do Tombo, em Lisboa. Muitos desses indivíduos processados eram leomilenses, o que abona em favor da teoria de que o cognome de judeus advém da existência de uma comunidade judaica em Leomil, com raízes antigas e que, tudo leva a crer, desapareceu já nos idos do século XVIII altura em que a Inquisição entrou em Leomil e, de uma assentada, processou uma família inteira de judeus.


Autor: Jaime Ricardo Gouveia
in Jornal Terras do Demo - 08 de Março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

"A História da Nossa Terra!"

Um portal desconhecido edificado em 1742 no morgado de S. António de Leomil

Não foi há muito tempo atrás que o Sr. Arménio Santana, um leomilense apaixonado pela história da sua terra, me perguntou se eu conhecia um brasão da Quinta de Santo António. Não tendo eu percebido ao que se referia, disse-me: “a casa dos teus padrinhos, aquele portal na fonte igreja tem um brasão da parte de dentro.” Percebi que se tratava de um belo portal que dá acesso à quinta do solar de Santo António. O presente esparso debruça-se sobre esse portal que se encontra detrás da “Fonte Igreja”, pequeno tanque onde até há escassos anos atrás se lavava a roupa, virado para o caminho que tantas vezes calcorreei enquanto miúdo, quando verões a fio ia à represa do Vidual encaminhar a água do regadio para a Retorta. É que muito embora não se trate de um brasão, tinha razão o Sr. Arménio ao referir-se àquele portal, pois trata-se de um pormenor arquitectónico de relevo completamente desconhecido no concelho que faz parte integrante de um solar que também é tido como de menor importância mas que, na verdade, comporta uma longa e rica história.
O solar do Santo António, assim chamado pela capela ali erigida em honra a esse santo, foi erigido em morgado. O morgado era um vínculo entre um proprietário e sua descendência, cujos bens eram transmitidos ao filho primogénito. Este, não os podia vender, senão acrescentar. O grande objectivo era a perpetuação dos bens na linhagem da respectiva família.
A família Fonseca, aquela a quem primitivamente foi doado o Couto de Leomil e cuja ramificação deu origem aos Coutinhos, está também na origem do morgadio de Santo António de Leomil. Este foi instituído em 1580 por Pedro Martins Fonseca Pacheco (1.º morgado) e sua mulher D. Isabel Pires de Paraduça. O pai do instituidor era Lourenço Anes Pacheco, capitão-mor e natural de Leomil e sua mãe era D. Maria Ozores da Fonseca. Seu avô materno era o alcaide-mor de Almeida e Vilar Maior, Cristóvão da Fonseca, o qual serviu em Arzila, foi comendador da Ordem de Cristo de Santa Luzia em Trancoso e senhor do morgado da Quinta da Rapa. El rei passou-lhe o brasão de armas de verdadeiro Fonseca no ano de 1523. Sua avó materna era D. Catarina de Sobral. Seus bisavôs maternos eram descendentes dos senhores do Couto de Leomil.
Em 1625 António Martins da Fonseca, Ambrósia da Fonseca e Sabino da Fonseca, não tendo descendentes, uniram os seus bens e fizeram nova instituição de morgadio com a cláusula de que os herdeiros deveriam usar o apelido Fonseca. Os herdeiros imediatos foram António Francisco Soeiro da vila de Sendim e sua mulher D. Maria Pires da Fonseca Pacheco. Segue-se na posse o licenciado Pedro da Fonseca Pacheco que também não terá tido descendentes a não ser o bastardo Diogo da Fonseca Pacheco, mais tarde reconhecido, e herdeiro do morgado, que casou com D. Francisca Barradas da vila de Sendim. Depois de viúvo ordenou-se padre e conseguiu alcançar um breve do papa Inocêncio 12.º para poder haver jubileu na capela do seu solar no dia de Santo António. Seu filho Pedro da Fonseca Barradas foi o herdeiro do morgado, o qual casou com D. Maria de Almeida Rebelo, senhora do morgado de N. Senhora do Repouso da Vila da Rua que por esta via se uniu ao morgado de Santo António de Leomil.
João da Fonseca Barradas, que casou com D. Maria Clara de Araújo e Melo, foi o herdeiro que se seguiu. Por ter falecido o seu filho primogénito, foi o segundo filho que herdou o morgado, Pedro Belarmino da Fonseca Barradas e Araújo, o qual casou com D. Clara Maria Joaquina de Magalhães Coutinho da Silveira. Outros herdeiros se seguiram até que no século XIX o morgado foi parar às mãos de Julião Sarmento de Vasconcelos e Castro, fidalgo da Casa Real, que tinha solar em Paradinha mas residia no de Santo António de Leomil. Este, em 1852, copiou um livro genealógico da autoria do seu irmão, Jácome Luís Sarmento de Vasconcelos e Castro, matemático e astrónomo que leccionava na Universidade de Coimbra. Mais tarde ainda, o solar viria a ser propriedade do Dr. António Ferreira da Fonseca Sèves que presidiu à Câmara de Moimenta da Beira e hoje é posse dos seus herdeiros.
Este solar não mantém a traça original. Sabe-se que tinha brasão. As colunas que servem de reentrância à escadaria interna alpendrada e a capela adoçada ao edifício são alguns dos poucos vestígios da primitiva traça. Não se sabe a data da sua remodelação e restauro mas é possível que tenha ocorrido por ocasião da edificação do portal que dá acesso à enorme quinta interior, no local designado “Fonte Igreja”, isto é, em 1742, de acordo com a data que o mesmo contém. Trata-se de um portal barroco com um frontispício mais simples mas com elementos da mesma gramática arquitectónico-decorativa do portal do solar leomilense dos viscondes de Balsemão. Foi certamente edificado pelos mesmos canteiros.
O Barroco foi um período estilístico e filosófico da História da sociedade ocidental, inspirado no fervor religioso e na passionalidade da Contra-Reforma, ocorrido desde meados do século XVI até ao século XVIII. O termo "barroco" advém da palavra portuguesa homónima que significa "pérola imperfeita", ou, por extensão, jóia falsa. A arte barroca procurou comover intensamente o espectador. A grande riqueza de detalhes nos ornamentos presente neste portal e o contraste com a simplicidade do interior, bem como o desenvolvimento horizontal do frontispício e a esfera central com data sobrepujada por remates de grande volumetria e engenho são características típicas deste estilo arquitectónico. A existência deste portal num local distante da entrada para o solar, bem como a existência de uma grande janela de avental ao lado e as enormes muralhas de três ou mais metros de alto enquadram-se também neste objectivo de impressionar a vista.

Autor: Jaime Ricardo Gouveia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

"A História da Nossa Terra!"

O tecto “Rococó” do Solar das Guedes

Sem dúvida um dos mais interessantes solares que Moimenta da Beira se orgulha de possuir, a casa das Guedes, hoje biblioteca Aquilino Ribeiro, situa-se no Terreiro das Freiras, a praça que passou a ser o centro cívico e político do concelho de Moimenta a partir dos alvores da Época Moderna (século XVI). Detentor de belos pormenores de antanho, entre os quais a portentosa pedra de armas de onde se vislumbram os símbolos heráldicos dos Sarmentos, Menas, Falcões, Vasconcelos e Gouveias, o edifício mantém traça setecentista, muito embora seja crível que a sua existência date de épocas mais recuadas, tendo sido alvo de várias reformulações, até porque se percebe que as fachadas não são simétricas, como já tive oportunidade de asseverar em artigo anterior acerca deste belo monumento. Composição onde predomina o puro granito da Beira, tem uma fachada imponentíssima que lhe dá celebridade como estrutura que veio abrilhantar o largo que se lhe abre de fronte. Tendo permanecido incólume às tropas de Loison, este solar pôde manter incólumes outros pormenores artísticos de relevo que convém destacar, nomeadamente os tectos que sobrepujam dois dos seus espaços interiores.
Na verdade, a destruição do interior de inúmeros solares pelo fogo ateado, foi um dos maiores atentados à arte portuguesa protagonizado pelas invasões francesas a que o solar das Guedes teve a felicidade de resistir, pois sorte igual não teve o vizinho solar dos Sarmentos.
O recurso à pintura de tectos em perspectiva granjeou uma grande preferência nas salas das casas nobres. Os tectos policromos deste palacete, restaurados há anos atrás, filiam-se ao estilo artístico denominado Rococó, também conhecido com o “estilo da luz”, como associação à corrente de pensamento denominada “iluminismo”. Curiosamente a palavra Rococó que deu origem ao estilo artístico, tem origem na mesma nação que passando por Moimenta em invasões poupou o edifício, isto é, trata-se de uma forma da palavra francesa “rocaille” que significa “embrechado” ou “concheado”, associada a determinadas fórmulas decorativas e ornamentais, como por exemplo a técnica da incrustação de conchas. O aludido movimento artístico teve origem na França e daí se expandiu um pouco por toda a Europa a todos os domínios artísticos (música, arquitectura, ourivesaria, pintura, etc.), tendo chegado a Portugal ainda na primeira metade do século XVIII. Se o Barroco, movimento artístico anterior, incidia sobretudo na temática religiosa, o Rococó vai centrar-se sobretudo nos temas profanos. É, por essa razão, uma variante do Barroco, mas usado sobretudo na decoração de interiores. Leve, intimista, elegante, alegre, bizarro, frívolo e exuberante são suas características principais.
De facto, nos tectos da casa das Guedes encontramos abundantemente temas rococós ligados ao profano. Alegria de viver, busca do prazer material e sensual, amor terreno, natureza (estações do ano e floreados), são algumas das composições que se encontram entre os temas mais representados. Alegorias (do amor e da inocência, das quatro estações do ano), tons pastéis e douramento, representações da vida profana da aristocracia (retrato da família e representação da embriaguez), inúmeros filetes decorativos, texturas suaves, são outras particularidades que podemos encontrar nestes dois tectos, tipicamente característicos do mencionado estilo.
Olhando agora mais minuciosamente para estes dois tectos de maceira, convém dizer que eles apresentam uma organização compositiva distinta. O do lado direito compõe-se de uma cercadura de recurvados concheados e segmentos enovelados, pontualmente delineados por coroas de flores, que circunscrevem medalhões dispostos lateralmente com figurações alegóricas, e ao centro um retrato de família, visível na figura que apresento e de onde se vislumbram três indivíduos: o chefe de família e as senhoras da casa, possivelmente mulher e filha. O do lado esquerdo, mais concreto na sua figuração, é enquadrado por uma arquitectura de ilusão, composta por balcões de balaústres, que sustentam as figuras alegóricas das quatro estações do ano e vasos de flores, e ao centro, num medalhão emoldurado por concheados, representa-se uma cena de família com um menino músico.
Esta é apenas uma pequena incursão pelos pormenores artísticos dos referidos tectos, com o respectivo enquadramento histórico que lhe subjaz. Sob o ponto de vista da simbologia das representações, da linguagem utilizada, do vestuário representado, bem como outros aspectos de relevo, estes tectos necessitam ainda de estudos apurados que permitam adensar ainda mais o conhecimento da história desta casa, das famílias que aí viveram e da própria vila.


Autor: Jaime Ricardo Gouveia

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

«A História da Nossa Terra!»

Um pormenor artístico de elevado significado histórico em Vide

Diz A. Bento da Guia, com toda a justeza, nos Oito concelho de Moimenta da Beira, que a povoação de Vide é concerteza cemitério sagrado de valores arqueológicos que Moimenta não tem o direito de ignorar. Concordo, embora se lhe devam acrescentar algumas povoações limítrofes. Das freguesias que actualmente fazem parte do concelho de Moimenta da Beira, a Rua é das que mais possui vestígios históricos, os quais são a marca de um passado denso de ocorrências. Esses vestígios são mais evidentes para o período clássico, pois abundam os ecos da romanização.
Pinho Leal e outros cronistas do passado fizeram questão de legar aos vindouros o testemunho vivo de alguns desses vestígios. Destacam-se a lápide romana dedicada ao imperador Marco Aurélio, descoberta em Vide nas casas do padre Lourenço Manuel de Almeida durante o ano de 1788; o pedaço do marco miliar que hoje se encontra na capela do Espírito Santo de Vide (antigamente de S. Sebastião), a lápide da capela de S. João de Vide encontrada no século XVI relativa ao ano de 585 d.C, a lápide da capela de S. Domingos dos Prados que se crê ter sido a antiga igreja matriz da freguesia, o marco miliário proveniente da Quinta da Alagoa, os pesos de tear, medalhões, e outros objectos encontrados, grande parte deles de barro, alicerces de muros, inúmeras tegulae, e tantos outros vestígios. Em 1872 um proprietário encontrou numa vinha grande em Vide uma significativa quantidade de moedas de cobre, pesando todas 6 kg. Muitas delas eram do tempo dos romanos e outras ainda anteriores ao seu domínio da Península. Algumas delas foram oferecidas à Câmara Municipal do Porto que as mandou colocar no seu museu. Em 18 de Março de 1878 num monte entre Rua e Caria uns operários enquanto demoliam um muro antigo acharam nos alicerces uma grande porção de moedas de prata de 20 tipos diversos, todos romanos. Por tudo isto, julga-se que algures entre Vide e Granja dos Oleiros terá existido uma grande povoação romana, denominada Rochela ou Arrochela. Julga-se que passava também por esse local uma via romana, dirigindo-se de Braga a Amarante e daí a Cidadelhe, povoação romana, indo um ramo para a cidade de Panoias, no termo de vila Real e outro à terra de Caria, partindo para toda a Beira e Riba Côa.
Na Idade Média não diminui a prosperidade da actual freguesia da Rua, agora adstrita à história de Caria, que foi também povoação romana. No tempo em que os godos dominavam o território, a vila de Caria era uma das 6 matrizes que formavam o bispado de Lamego. Almansor destruiu-a no século IX e no tempo de D. Afonso Henriques era apenas um julgado pertencente a Leomil, até que no século XIV se erigiu em concelho e vila independente. Despovoado o castelo, os moradores retiraram-se para lugares mais cómodos e abrigados, pois já não receavam as invasões dos moiros. No século XIII já existia a povoação de Caria Jusan (hoje Rua), Caria Suzan (hoje Caria) e Caria Velha, que era o castelo, hoje em completa ruína. Ao que parece, a sede do concelho situava-se em Caria Jusan, povoação onde existia casa da Câmara, cadeia, e mais tarde foi erguido o pelourinho. Continuava a existir uma ocupação do território de Vide, tal como se pode verificar nas sepulturas medievais escavadas na rocha, contíguas à capela de S. João. Durante o período medievo foi fundado neste concelho um mosteiro de frades franciscanos. O concelho foi suprimido por decreto de 24 de Outubro de 1855 sendo incorporado no de Sernancelhe e só a partir de 21 de Maio de 1896 passou a pertencer ao de Moimenta.
Mas, por mais rico que seja o passado histórico de determinada localidade, é sempre possível partir em busca de novos documentos e novos factos. A descoberta da história é uma actividade permanente, contínua, inacabada. Isso mesmo prova o mais recente vestígio de que tomei conhecimento em Vide, o qual vem juntar-se a tantos outros já existentes e que adensa o nosso conhecimento sobre o passado histórico dessa localidade. Trata-se de uma inscrição existente na casa do Sr. João Tomé Fonseca, visível na imagem que apresento. As siglas IHS significam “Jesus” e o conjunto que formam com a cruz que traça o H pelo meio constitui o símbolo da Companhia de Jesus. A inscrição aparece na fronte de um grande orifício embutido na parede que contém um buraco no fundo por onde deveria passar um líquido qualquer. Seria repositório de azeite? Vinho? Água Benta? Não se sabe concretamente, dado não se perceber o enquadramento com o resto da casa, entretanto adulterada. No entanto, uma coisa é possível desvendar. Esta casa, a primitiva casa, esteve ligada aos jesuítas e, tal como a inscrição, é anterior ao ano de 1764. Até esta data, Vide pagava o dízimo ao colégio dos jesuítas de Coimbra. A partir de então, e como reflexo dos problemas vividos pelos padres da Companhia de Jesus que culminaram com a sua extinção, o rei passou as rendas para a posse da Universidade de Coimbra. Daí os inúmeros marcos com as siglas “VDE” que significam “Universidade” existentes em toda a freguesia da Rua que foram colocados a partir desse período para assinalar essa posse. Se esta casa servia de residência paroquial, visto que se sabe que cada uma das anexas da Rua tinha um padre, não se sabe, mas é provável.

Autor: Jaime Ricardo Gouveia

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A História da Nossa Terra!

Património religioso imóvel: os cruzeiros

Padrões por excelência da fé cristã, os espécimes que compõem este património religioso imóvel são símbolos iconográficos da cultura católica ocidental. O empenho das comunidades na edificação destas estruturas revela a sua devoção e a necessidade que têm e sempre tiveram de evocar a protecção divina no quotidiano. Colocados nas ruas, nas bermas das estradas, nos largos, nos campos ou nos montes, apenas alguns constituíam um passo, ou paragem, de uma procissão, mas todos monumentalizaram e sacralizaram os lugares onde se encontram. Por muitos deles, alguns antiquíssimos, os nossos antepassados nutriam a sua mais ardente devoção.
Das tipologias funcionais dos cruzeiros merecem destaque três: uma que serve para assinalar fisicamente um percurso espiritual e simultaneamente físico de uma determinada cerimónia religiosa (procissão); outra que tem a ver com a protecção das pessoas viventes das almas penadas, “que costumam habitar as encruzilhadas dos caminhos e estradas”; e uma última função que se presta à recordação - função memorialista.
Morfologicamente os cruzeiros mais completos são constituídos por uma base de degraus com recorte quadrado, circular, octogonal ou poligonal, sobre os quais se elevam um pedestal e a coluna, com fuste, por vezes facetado, coroado por capitel sobre o qual assenta a cruz. Alguns contêm gravadas as armas dos prelados que os mandaram edificar. Outros motivaram a construção de capelas dedicadas ao Calvário. Alguns apresentam-se em granito singelo, sem relevo nem imagens. Outros, têm uma elevada riqueza artística, onde os ignorados canteiros do passado deram largas ao seu imaginário e materializaram no duro granito, com rudes mãos, a sua arte sentida. Alguns ostentam imagens na cruz, nomeadamente a de Cristo (quando a opção não escolheu a da Virgem e da Pietà), cujo objectivo é o reforço da rememoração do seu papel de mediador entre o céu e a terra, sacralizando esses espaços que assim ganham uma nova dimensão: a dinamização da Fé.
O elemento seccional mais importante do cruzeiro, aquele que lhe dá o nome, é a cruz. Símbolo máximo do catolicismo, a cruz materializa o poder de Cristo sobre a morte, e é elemento incontornável de expressão e afirmação da sua universalidade. Trata-se, por conseguinte, de um elemento referencial de todos os espaços religiosos. A sua existência, porém, não se confina a espaços interiores, onde predomina. No exterior, onde aparece com ou sem a figura de Jesus Cristo, é um elemento também fulcral, seja sob a forma de cruzes processionais, seja integrando a arquitectura das igrejas nos vértices do telhado ou nas fachadas, seja insculpida e até pintada nas superfícies murais junto das paredes ou disposta nas ruas e praças das localidades. Aí, mais do que representar a morte do filho de Deus constitui um recurso simbólico para a exaltação da redenção dos cristãos e da possibilidade da ressurreição. No espaço contíguo às igrejas, prestam-se a identificar de forma imediata aos fiéis o itinerário do caminho da luz, o trilho sagrado que o redentor calcorreou como parte integrante da sua missão. Já a sua disposição nas fachadas dos edifícios trata-se da imposição de um exercício de devoção aos cristãos.
Fora do espaço contíguo aos templos, este elemento aparece sobretudo nos locais de passagem quotidiana, de sociabilidade das comunidades ou outros associados ao sagrado (todos os trajectos das vias-sacras contêm este elemento primordial do catolicismo), tal como acontece com o cruzeiro de Soutosa visível na imagem que apresento. A sua construção nos caminhos, praças e cruzamentos, remete os fiéis para a constatação de que a digressão humana na terra deve procurar as veredas certas, sem desvios e orientada para a presença de Deus. Há portanto o objectivo de uma rememoração de que do cume dos céus a entidade divina escolta de perto o percurso dos viajantes aspirantes ao Paraíso: acompanha-os na viagem e protege-os.
Espaço por excelência de religiosidade desde eras imemoriais, o concelho de Moimenta da Beira é depositário de cruzeiros artisticamente interessantes e remotos, tais como o já referenciado, o de Paradinha, Paraduça, e tantos outros que por aqui abundam. A proliferação de outros mais recentes é também uma realidade. Passado e presente aparecem unificados e relegam os modos como os fiéis viviam a sua religiosidade para um tempo a-histórico, no sentido em que denotam uma prática religiosa e, portanto, cultural, que se perpetuou.

Autor: Jaime Gouveia
Publicado na última edição do Jornal Terras do Demo

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Crónica - "História da Nossa Terra"

O pelourinho do concelho de Moimenta da Beira

Talvez pelo facto da aposta no estudo e divulgação da História do concelho de Moimenta da Beira ter estado anos a fio numa fase embrionária, a noção que se tinha das eras passadas deste concelho era muito desfocada. Talvez por isso o resultado das investigações que nos últimos tempos se têm levado a cabo tenha surpreendido tudo e todos. Assim parece ter acontecido com o pelourinho do concelho de Moimenta da Beira, outrora julgado inexistente e sobre o qual, mesmo depois de toda a evidência documental, alguns continuam a duvidar ter existido.
O pelourinho reedificado no Terreiro das Freiras em jeito de réplica é um dos oito espécimes de cuja existência há provas físicas e documentais, tendo em conta a actual configuração do concelho de Moimenta da Beira. Trata-se de um pelourinho do estilo “bola”, sendo crível que o original tenha sido edificado no século XVI.
Vila detentora de foral na Idade Média, Moimenta da Beira estava adstrita às justiças do Couto de Leomil, de cuja unidade administrativa senhorial fazia parte. Nos inícios do século XVI tinha já câmara municipal com o respectivo juiz ordinário, certamente nomeado pelo senhor do Couto. Com o desmembramento do senhorio leomilense em 1534, os direitos e privilégios do Couto passaram para as mãos da coroa. O concelho de Moimenta da Beira passou então a dispor de justiças autónomas, sendo provavelmente na mesma altura edificado o pelourinho, num pequeno largo contíguo à Casa das Guedes, onde culmina a rua que vem da “Casa da Moimenta”.
Centúrias depois, fortes partidários do liberalismo que se opunha ao municipalismo antigo, forjado no senhorialismo, os moimentenses viriam a destruir o padrão concelhio. Em 18 de Janeiro de 1874 o vice-presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, comendador João de Macedo Araújo e Costa, requereu à Câmara que “fosse demolido o Poleirinho desta vila”. A Câmara condescendeu no pedido. Em 29 de Novembro de 1882, o então presidente da autarquia, comendador João Vieira de Azevedo, afirmou em reunião da vereação ter vendido por mil réis, ao alfaiate José Maria dos Santos, a pedra extraída da fraga do Pelourinho que se achava depositada no terreiro das Freiras, à época Praça Camões, antiga praça D. Luís I.
Em 2002, Monsenhor A. Bento da Guia delineou uma reconstituição do pelourinho de Moimenta da Beira com base na junção de algumas pedras que pertenceram a esse monumento, as quais se situam no enquadramento desta praça (sacristia do convento beneditino; escadas da habitação de A. Bento da Guia; laje de uma casa nas imediações da capela de N. Sra. do Amparo).
Investigações posteriores, protagonizadas por mim, que deram origem ao livro “Os Pelourinhos do concelho de Moimenta da Beira”, partiram do modelo do labor antoniano e construíram a réplica aqui edificada, mais fidedigna e científica, com a ajuda de técnicos especializados. Delineei o modelo e publiquei o estudo que lhe serve de suporte. A réplica foi executada pelo escultor Noel.
Não sendo possível a sua colocação no espaço original da sua edificação, optou-se por colocá-la no pequeno espaço onde se encontra, estabelecendo assim uma ligação simbólica com a praça que a partir do século XVI foi o centro cívico e político municipal e em redor da qual se encontram hoje alguns vestígios materiais do primitivo pelourinho. Com esta opção cumprem-se dois objectivos de uma assentada: memorialístico e simbólico.
São vários os elementos seccionais que compõem este monumento. A plataforma possui um soco de quatro degraus redondos e simples. Daqui emerge o fuste, sem base, algo arredondado, portentoso, e medianamente elevado. Segue-se o capitel, composto de uma reprodução da figura antropomórfica existente na Casa da Moimenta, que representa uma máscara mortuária denominada pelo povo através dos séculos como “a Moimenta” em alusão à noção da justiça que encontra ligações simbólicas à fundação própria “vilae” “Monumenta” ou “Monumentum”. A guardar o conjunto estão 4 frades da mesma pedra. O conjunto é rematado por um bloco de pedra esférico, que filia este monumento ao tipo “bola”. O seu aspecto rústico de monumento de arte popular, foi feito para o povo simples e mandado construir com singeleza de linhas, despretensiosas e algo toscas, sem grande filetes decorativos, em granito lavrado oriundo de pedreiras da região.

sábado, 10 de outubro de 2009

Crónica "História da Nossa Terra"

Arnas: alguns pormenores da sua História

Segundo o padre Luís Cardoso, no seu Dicionário, escrito em 1747, Arnas pertencia ao Distrito de Entre Côa e Távora, comarca de Pinhel, termo de Sernancelhe. Tinha 86 vizinhos. Dizia o mesmo: “Está situado em hum baixo, ou ladeira virada para o Norte, donde somente se descobre o lugar da Taboinha. A Igreja paroquial deste lugar está fundado no cimo do povo e fora delle.” O padre era apresentado pelo comendador de Sernancelhe e tinha de renda 40 medidas de centeio, 10 de trigo, 10 de milho e as primícias dos vinhos. Eram 6 as ermidas existentes, entre as quais a de S. Sebastião que já tinha sido matriz. Os frutos mais abundantes eram o trigo, milho, centeio, feijão e castanha. A actividade predominante era a agricultura.
Dez anos depois, em 1757, dizia Pinho Leal que Arnas, com orago de N. Sra. da Conceição, pertencia já à comarca de Moimenta da Beira e ao concelho de Sernancelhe. Situada na encosta de um monte, era terra bastante fértil e tinha 104 fogos.
Por sua vez, Américo Costa, no seu Dicionário Corográfico, cita o abade Vasco Moreira para explicar o nome Arnas com o facto do local ser assaz arenoso: “o étimo deve ser do Latim arena, areia, isto é, terra de areias.” No entanto, segundo Almeida Fernandes, Arnas tem origem obscura, referindo não ser possível aceitar o latim arenas com a tónica – re. O pré-romano arn significa também concavidade, depressão topográfica. Para outros, o topónimo Arnas, de origem muito antiga (provavelmente romana), deriva directamente do latim arenas (areias). Outras posições atribuem o nome à tribo Lusa das margens do Côa, Colarni citada na ponte romana de Alcântara em Espanha, como atestam sepulturas antropomórficas e diversos vestígios arqueológicos.
Penso ainda que outras interpretações podem ser esboçadas. Que dizer de Arnas ser uma derivação de Arras? Segundo Viterbo, Arra tem origem semita pelo grego “arras, penhor”. Do grego passou para o latim arrhãbó, ou arrhãbónis, de que se vulgarizou a forma abreviada arrha, ou arrhae, donde proveio o português pelo plural arrrhas. Eram constituídas as arras por uma pequena quantia em dinheiro ou por um objecto, por vezes um anel, que uma das partes contraentes, geralmente o comprador, entregava a outro para indicar que o contrato era perfeito e que se chegara a acordo definitivo. Além desta, exerciam ainda as arras a função de sinal ou de garantia para o cumprimento de um contrato.
Em Roma, começou a aplicar-se as arras aos matrimónios, originando-se assim as arrhae sponsaliae, cuja entrega era frequentemente acompanhada de um anel. Mais tarde os romanos transmitiram-no aos Germanos. Já no reino português, empregou-se constantemente o dote sob a designação de arras. A expressão mulher arrada ou recabdada significava que estava legitimamente casada e dotada, ao contrário das barregãs.
Esta terra é depositária hoje de pormenores arquitectónicos de vetusto aspecto. Merece destaque o tecto da nave da igreja matriz (séc. XVI), o qual ostenta uma enorme pintura de Nossa Sra. da Conceição com uma singular iconografia onde um dragão aparece ferido por um raio de fogo atirado simbolicamente por uma criança. A capela de S. João Baptista é um monumento que se distingue também, com seu pórtico românico de rude singeleza. Esta capela foi primitivamente igreja da paróquia. Ao seu lado, no mesmo terreiro, ergue-se do solo uma alta e enigmática pilastra, constituída por um cuidado talhe de blocos de granito lavrados a pico piudo, com ressaibos do românico que, segundo a tradição popular, foi deslocada, para ali, do interior da capela, antiga igreja do povoado. Esta pilastra tem sido, erroneamente, tida como pelourinho. Numa pequena encosta ao nascente da povoação destaca-se uma colossal caverna com abrigo para rebanho de 100 cabeças, envolta em lendas, cujos mistérios o povo foi devassando.
Destaque ainda para o monte Muragos, no cimo do qual foram aparecendo, ao longo do tempo, vestígios arqueológicos, restos de alguma estância luso-romana. Este facto, segundo Vasco Moreira, significa que Arnas foi fundada pelos romanos na altura em que estes dominaram o castelo de Sernancelhe.
Publicado na última edição do Jornal Terras do Demo